19 fevereiro 2026

A Sociedade da Dívida

 


Somos livres ou apenas bem administrados?

Por Wilson Cesar Malinoski - JP 5007/SC


Há uma pergunta incômoda que evitamos fazer porque ela desmonta quase tudo o que aprendemos a acreditar:

Nossa sociedade foi construída sobre a liberdade ou sobre uma sofisticada estrutura de servidão?

Durante séculos, a escravidão era explícita. Havia correntes visíveis, donos identificáveis e leis que não escondiam o domínio. Hoje, as correntes não fazem barulho. Elas vêm impressas em contratos, boletos, financiamentos, cartões de crédito e cláusulas que poucos leem, mas quase todos assinam.

O sistema mudou de forma, não necessariamente de essência.

Vivemos numa sociedade que promete ascensão ilimitada através do trabalho e do consumo. O discurso dominante, herdado das revoluções industriais e fortalecido pelo pensamento econômico liberal: afirma que a riqueza pode crescer indefinidamente. Basta produzir mais, consumir mais, investir mais.

Mas há um detalhe raramente discutido: é possível expandir riqueza infinita dentro de um planeta finito e de uma sociedade desigual?

Os defensores do capitalismo contemporâneo garantem que sim. A inovação resolveria tudo. O mercado se autorregularia. A competição premiaria os mais eficientes.

A realidade cotidiana conta outra história.

A economia moderna parece funcionar menos como um sistema de prosperidade coletiva e mais como uma máquina permanente de endividamento social. O cidadão nasce consumidor antes mesmo de ser cidadão. Aprende cedo que precisa financiar o estudo, parcelar o carro, hipotecar a casa, antecipar o salário e renegociar o futuro.

A dívida tornou-se o novo instrumento de controle social.

Não se trata apenas de inadimplência. Trata-se de uma engrenagem estrutural que favorece a concentração de renda. Juros sobre juros, cobranças abusivas, vendas casadas disfarçadas de conveniência, contratos opacos, renegociações que ampliam o débito em vez de solucioná-lo, Legal. Regulamentado. Normalizado.

Uma pilhagem sem piratas visíveis.

No setor imobiliário, o retrato é quase pedagógico. Contratos de locação frequentemente protegem quem já possui patrimônio e penalizam quem apenas precisa morar. O locatário assume riscos, taxas, multas, reajustes e obrigações desproporcionais. Ao final do contrato, muitas vezes sai mais pobre do que entrou, mesmo tendo pago rigorosamente pelo direito básico de habitar.

Não é acidente. É desenho estrutural.

A lógica neoliberal transformou direitos em produtos e necessidades humanas em oportunidades de mercado. Moradia vira ativo financeiro. Saúde vira plano. Educação vira investimento individual. Até o tempo livre passou a ser monetizado. O indivíduo tornou-se empreendedor de si mesmo, e, paradoxalmente, mais sozinho do que nunca. Vivemos sob uma economia frenética, que exige produtividade constante e recompensa poucos. Enquanto a tecnologia multiplica a capacidade de produção, a renda concentra-se em escala histórica. Nunca se produziu tanta riqueza. Nunca ela esteve tão acumulada.

A promessa era liberdade econômica. O resultado parece ser dependência permanente.

A pergunta então muda: qual é a saída? Não existe resposta simples, mas talvez existam caminhos. O primeiro é recuperar o sentido coletivo da economia. Mercados são ferramentas, não divindades. Crescimento econômico não pode ser medido apenas por índices financeiros, mas pela qualidade de vida real das pessoas.

O segundo é transparência radical. Contratos compreensíveis, regulação efetiva contra abusos financeiros e proteção equilibrada entre as partes não são obstáculos ao mercado — são condições mínimas de civilização econômica.

O terceiro é cultural. Precisamos questionar o mito da riqueza infinita individual como objetivo social absoluto. Uma sociedade saudável não é aquela onde poucos acumulam sem limite, mas aquela onde muitos vivem com dignidade.

Talvez a maior revolução do século XXI não seja tecnológica, mas moral: reaprender que economia deveria servir às pessoas, e não o contrário.

Porque a verdadeira escravidão moderna não é trabalhar muito.

É trabalhar a vida inteira sem nunca deixar de dever.

E enquanto não fizermos essa pergunta coletivamente, continuaremos acreditando que somos livres, quando talvez sejamos apenas peças eficientes de um sistema que administra nossa dependência.

04 janeiro 2026

O Sol Não Tem Dono

 


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC

Tudo no universo conhecido pulsa a partir de uma fonte primaz: a luz do sol. Não apenas como fenômeno físico, mas como símbolo ancestral de energia, de continuidade e de pertencimento coletivo. O sol nasce para todos, sem distinção de fronteiras, crenças ou posses. Ainda assim, há quem se comporte como se essa luz tivesse dono, como se o dia fosse um privilégio privado. Talvez aí resida um dos males mais persistentes do mundo contemporâneo.

Sob o olhar sociológico, essa apropriação simbólica do sol revela a lógica da desigualdade internalizada. Vivemos em sociedades que naturalizam o acúmulo, o privilégio e a exclusão, ensinando, desde cedo, que alguns merecem mais do que outros. O sol, que deveria ser o grande equalizador da existência, acaba ofuscado por muros, discursos e estruturas que concentram poder e visibilidade em poucas mãos. A luz é a mesma, mas o acesso à sombra confortável e à água fresca não é.

A antropologia nos lembra que, desde as primeiras civilizações, o sol foi divindade, calendário e orientação. Povos antigos compreendiam que sua força era coletiva. Sem ele, não havia colheita, nem tempo, nem vida social organizada. Ao transformar essa energia comum em símbolo de posse, o ser humano moderno rompe com um pacto ancestral de pertencimento à natureza e ao outro. Passa a agir não como parte do sistema, mas como seu proprietário.

Do ponto de vista psicológico, a ilusão de que o sol nasce só para mim surge do medo. Medo da escassez, da irrelevância, do esquecimento. Para muitos, monopolizar a luz, seja em forma de poder, status ou narrativa, é uma tentativa desesperada de afirmar a própria existência. O problema é que, ao fazer isso, projeta-se sombra sobre os demais. E sombra prolongada adoece relações, comunidades e consciências.

Na vida real, essa lógica se repete nos pequenos gestos cotidianos. No trânsito onde ninguém cede passagem, na política onde poucos falam por muitos, no mercado onde o lucro se sobrepõe à dignidade, e até nas relações pessoais marcadas pela competição permanente. O sol continua nascendo para todos, mas há quem insista em fechar as janelas alheias para que sua própria claridade pareça maior.

Talvez o verdadeiro avanço civilizatório não esteja em conquistar novas fontes de energia, mas em reaprender o óbvio. A luz não é propriedade, é partilha. O sol não escolhe a quem iluminar. Quando o ser humano tenta fazê-lo, transforma energia vital em instrumento de dominação. E esse, ao fim e ao cabo, segue sendo um dos grandes males do mundo.

Entre Metas e Expectativas: o Risco Invisível da Virada do Ano



O ano de 2025 se despede sob um céu carregado. Pressões sociais acumuladas, cobranças silenciosas e a velha promessa de que o próximo calendário trará redenção. Em 2026, deposita-se mais do que esperança: projeta-se uma expectativa quase messiânica de mudança. É aí que mora o risco.

Do ponto de vista social, as metas que desenhamos raramente são apenas nossas. Elas nascem contaminadas pela lógica da comparação, pela vitrine das conquistas alheias e pela obrigação difusa de “dar certo”. A sociedade da performance não pune apenas o fracasso público; ela corrói, aos poucos, a autoestima privada. Quando os objetivos passam a responder mais ao olhar do outro do que ao sentido íntimo da própria trajetória, deixam de ser projeto e viram peso.

Na dimensão psicológica, o problema não está em sonhar alto, mas em amarrar a felicidade a um resultado fechado, rígido, quase contratual com o futuro. Expectativas infladas e inflexíveis geram ansiedade crônica e a sensação de derrota antecipada. Metas saudáveis precisam respirar: devem ser adaptáveis, divididas em processos e acompanhadas de consciência emocional. Caso contrário, aquilo que deveria orientar se transforma em veneno lento.

A filosofia ajuda a colocar os pés no chão. Dos estoicos ao existencialismo, a lição é recorrente: não controlamos o desfecho, apenas a postura diante do caminho. A vida não se curva às nossas projeções. É o sujeito que precisa ajustar suas expectativas à realidade em movimento, sem abdicar da responsabilidade pelas próprias escolhas.

A pergunta que ecoa na virada do ano é direta: devo reduzir minhas expectativas para ser feliz? A resposta exige maturidade. Não se trata de encolher sonhos, mas de retirar da linha de chegada o monopólio do sentido. Metas ambiciosas são necessárias, desde que funcionem como direção, não como condição para a dignidade pessoal.

Entrar em 2026 com menos ilusões não significa entrar com menos esperança. Significa compreender que felicidade não é prêmio por desempenho, mas consequência de um modo mais lúcido de caminhar. Em tempos de tanta pressão, talvez o verdadeiro avanço esteja em seguir em frente sem se envenenar pelo próprio ideal de sucesso.

02 janeiro 2026

Iniciativa irá reconhecer projetos que impulsionam o turismo negro no país


 Itapoá - 02 de Janeiro 2026

O Ministério da Igualdade Racial (MIR), irá selecionar 50 iniciativas de afroturismo por meio do 1º Prêmio Rotas Negras. O edital, que é uma parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), destinará mais de R$1,6 milhão para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades negras. As inscrições podem ser feitas até 18 de janeiro.

 

Com o intuito de impulsionar o turismo negro no país, a seleção do 1º Prêmio Rotas Negras irá reconhecer e valorizar projetos que evidenciam o legado africano, afro-diaspórico e afro-brasileiro, fortalecendo espaços de memória e resistência, sejam eles urbanos ou rurais.

 

A ação reforça o compromisso do MIR com a implementação e articulação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) em todo o território nacional. O edital conta com um investimento total de R$1,62 milhão, executados pela UFSM, direcionados à premiação de iniciativas da sociedade civil, municípios, consórcios intermunicipais e estados.

 

Cada uma das 50 iniciativas selecionadas receberá um prêmio em dinheiro, com valores que variam entre R$15 mil e R$70 mil, a depender da categoria de inscrição. O recurso será repassado na modalidade de doação sem encargo, garantindo que o valor seja aplicado diretamente no fortalecimento da iniciativa apresentada e na valorização da cultura negra.


LANÇAMENTO

 

Apresentado oficialmente durante o Seminário Rotas Negras 2025, que foi realizado em Brasília nos dias 26 e 27 de novembro, o prêmio foi um dos destaques no evento, que debateu o tema “Afroturismo e Desenvolvimento Sustentável: Estratégias para a Promoção da Igualdade Racial”. Além da apresentação do edital, o encontro marcou a posse do Comitê Gestor do Programa e a divulgação do 1º Relatório Técnico do setor, reunindo gestores e lideranças em torno do turismo como vetor de reparação e justiça econômica.

 

Esta iniciativa é mais uma entrega no âmbito do Novembro Negro, materializando as diretrizes do Decreto nº 12.277/2024. A iniciativa busca impulsionar o afroturismo no País, de forma que valorize a cultura afro-brasileira nos cenários nacional e internacional. 

 

 

1º PRÊMIO ROTAS NEGRAS

 

Tem como objetivo selecionar e premiar 50 iniciativas que fortaleçam o afroturismo como uma modalidade de empoderamento e visibilidade da história e cultura negra no Brasil. A premiação busca reconhecer ações que evidenciem o legado afro-diaspórico e afro-brasileiro em suas diversas manifestações, materiais e imateriais, como tradições, ritmos musicais, gastronomia, celebrações e religiosidades.

 

O escopo do prêmio abrange uma vasta gama de experiências, incluindo o turismo em Comunidades Remanescentes de Quilombo e Povos de Terreiro, a preservação de Clubes Sociais Negros e a criação de rotas urbanas ou rurais de memória e história. Ao valorizar a herança negra na construção da identidade nacional, a iniciativa visa impulsionar o desenvolvimento sustentável dessas comunidades e promover um turismo que respeite e potencialize o legado ancestral.

 

Rotas Negras – Instituído pelo Decreto nº 12.277/2024, o Programa Rotas Negras é uma ação estratégica do Governo do Brasil para estruturar e fortalecer o turismo negro no País. Seu objetivo central é valorizar a memória e a cultura afro-brasileira, utilizando o turismo como ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de renda e emprego.

 

Coordenado pelo Ministério da Igualdade Racial, o programa é desenvolvido de forma intersetorial, envolvendo ministérios como o do Turismo (MTur), Cultura (MinC), Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), além de órgãos como a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). A iniciativa busca dar visibilidade a roteiros que envolvem comunidades quilombolas, de terreiro e pontos de memória, promovendo o reconhecimento do protagonismo negro na formação da sociedade brasileira.





31 dezembro 2025

Mais de 1 milhão de pessoas celebram o primeiro dia do Réveillon de Fortaleza nos polos Conjunto Ceará, Messejana e Aterro da Praia de Iracema

 

Réveillon descentralizado é sucesso e antecipa o clima dos 300 anos da Capital cearense; programação segue nesta quarta-feira (31)

A primeira noite do Réveillon Fortaleza 2026, realizada nesta segunda-feira (30/12), foi marcada por muita música, alegria e grande participação popular nos polos do Aterro da Praia de Iracema, Conjunto Ceará e Messejana. Ao todo, mais de 1 milhão de pessoas participaram das celebrações nos três pontos da cidade, confirmando o sucesso da proposta de descentralização da festa e o fortalecimento das comemorações nos bairros.
 
No Polo Messejana, cerca de 50 mil pessoas acompanharam a programação ao longo da noite, vibrando ao som de Gustavo Serpa, Vanessa A Cantora com participação de Paulinha Ravett e Vicente Nery. Na sequência, Xand Avião levou o público ao delírio com seus grandes sucessos, e o encerramento ficou por conta de Taty Girl, que manteve a animação até o fim da programação.
 
Já no Conjunto Ceará, aproximadamente  80 mil pessoas prestigiaram os shows de Dipas e Di Ferreira, Marcinho e da dupla Luis Marcelo e Gabriel. Em um dos momentos mais aguardados da noite, a banda Seu Desejo emocionou o público, e Natanzinho Lima encerrou a programação colocando todo mundo para cantar e dançar, coroando o sucesso do polo.
 
No Aterro da Praia de Iracema, milhares de pessoas acompanharam uma sequência de grandes apresentações que reuniram diferentes estilos musicais e reforçaram o protagonismo do espaço como principal palco do Réveillon de Fortaleza. A energia do público, aliada à estrutura e organização do evento, marcou a primeira noite de festa na orla.
 
“Esse primeiro dia de Réveillon mostra a força de uma Fortaleza que celebra unida, em todos os seus territórios. A descentralização da festa garante mais acesso, movimenta a economia dos bairros e reforça nosso compromisso com uma cidade mais inclusiva, acolhedora e já no clima dos 300 anos que vamos celebrar”, destacou o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão. 
 
A programação continua nesta terça-feira (31/12), no Aterro da Praia de Iracema. O cantor Seu Jorge comanda o momento da virada, com um espetáculo de 10 minutos de fogos silenciosos, realizado no espigão da João Cordeiro, marcando a chegada de 2026. A noite segue com grandes atrações, consolidando o Réveillon Fortaleza como um dos maiores e mais democráticos do país.
 
Confira a programação no Aterro da Praia de Iracema:
 
17h – Marcos Lessa
17h55 – Nayra Costa
18h50 – Transacionais
19h55 – Paralamas do Sucesso
21h30 – Claudia Leitte
23h10 – Seu Jorge
00h10 – Seu Jorge
01h – Matuê
2h35 – Wesley Safadão
4h30 – Taty Girl

Quando o calendário vira, a cultura se revela


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC


Mudar o calendário de 2025 para 2026 é, em aparência, um gesto banal. Um número substitui o outro, páginas se encerram, agendas se renovam. Mas a cultura humana nunca lidou com o tempo de forma neutra. O calendário não é apenas uma ferramenta de organização, é um artefato simbólico que estrutura expectativas, medos, promessas e ilusões coletivas.

Do ponto de vista sociológico, a virada do ano funciona como um ritual moderno. Uma pausa consentida para reorganizar narrativas pessoais e sociais. É quando sociedades inteiras autorizam a si mesmas a recomeçar, mesmo sem ter mudado as condições objetivas da vida. A data cria a sensação de ruptura, ainda que o mundo siga contínuo e indiferente aos nossos marcos artificiais.

Na filosofia, o tempo nunca foi apenas cronológico. Ele é vivido, sentido, interpretado. A passagem de 2025 para 2026 carrega mais do que dias futuros; carrega a esperança de que o novo número seja capaz de corrigir erros antigos. É a velha crença de que o tempo, por si só, redime. Mas o tempo não transforma, ele apenas expõe. O que muda é a consciência que se tem dele.

Já a psicologia humana se agarra ao calendário como mecanismo de sobrevivência emocional. Precisamos de marcos para suportar o caos, de datas para nomear começos, de fins para elaborar perdas. A virada do ano oferece um alívio simbólico: a sensação de controle sobre aquilo que, no fundo, não controlamos.

Assim, ao mudar de 2025 para 2026, não é o tempo que muda, somos nós que pedimos licença para tentar mudar junto com ele. O calendário vira, mas a responsabilidade permanece. E talvez a verdadeira virada não esteja no número que chega, mas na coragem de não delegar ao tempo aquilo que só a ação humana pode transformar.


12 dezembro 2025

COAMO chega ao Pontal

Foto: Divulgação 

 Desenvolvimento anunciado e o desafio de crescer sem perder identidade

Por Wilson César Malinoski JP 5007/SC

Itapoá vive um daqueles momentos raros da história em que o futuro deixa de ser promessa e passa a ter endereço, investimento e cronograma. A confirmação do Terminal Portuário da Coamo Agroindustrial Cooperativa no bairro Pontal representa, sem dúvida, um divisor de águas para o município e para todo o litoral norte catarinense.

Não se trata apenas da instalação de mais um porto. Trata-se da chegada de uma das maiores cooperativas agroindustriais da América Latina a uma cidade que, até poucas décadas atrás, era reconhecida essencialmente como balneário de veraneio e refúgio de pescadores artesanais.

O anúncio do empreendimento confirma algo que especialistas já observavam: Itapoá deixou de ser apenas destino turístico para tornar-se peça estratégica na logística nacional de exportação.



O lado positivo: 

Investimento, emprego e protagonismo regional

O projeto prevê investimentos bilionários e uma cadeia econômica capaz de movimentar setores inteiros da economia local. Durante a fase de obras, a expectativa é de geração significativa de empregos diretos e indiretos, além do fortalecimento do comércio, serviços, construção civil e logística.

Para uma cidade em crescimento acelerado, o terminal surge como oportunidade concreta de:

  • ampliação da arrecadação municipal;

  • valorização profissional da mão de obra local;

  • atração de novas empresas e fornecedores;

  • consolidação de Itapoá como polo logístico do Sul do Brasil.

A presença da Coamo traz também um elemento importante: previsibilidade econômica. Cooperativas desse porte operam com planejamento de longo prazo, estabilidade operacional e compromisso institucional; fatores que costumam reduzir ciclos de crescimento artificial ou especulativo.

Em linguagem simples: o investimento não chega como aventura empresarial, mas como projeto estruturante.

O outro lado da balança: crescimento exige responsabilidade

Mas todo bônus carrega um ônus — e ignorar essa equação seria falhar com a missão do jornalismo.

O bairro Pontal, escolhido pela localização estratégica junto à Baía da Babitonga, possui características sociais e ambientais próprias. Ali convivem moradores antigos, pescadores, famílias tradicionais e novos residentes que escolheram a região pela tranquilidade e pela relação direta com o mar.

A chegada de um terminal portuário naturalmente levanta questionamentos legítimos:

  • aumento do tráfego pesado;

  • pressão sobre infraestrutura urbana;

  • mudanças no perfil imobiliário;

  • impactos na pesca artesanal;

  • transformações culturais inevitáveis.

Não são resistências ao progresso. São perguntas que toda comunidade madura precisa fazer antes de atravessar uma mudança histórica.

Um empreendimento que vai acontecer

O ponto central do debate atual já não é mais se o porto será construído, mas como essa transformação será conduzida.

Os processos ambientais, audiências públicas e estudos técnicos indicam que o projeto avança dentro dos ritos legais. O cenário aponta para um empreendimento que tende a se consolidar nos próximos anos.

Diante disso, surge uma reflexão necessária: a cidade precisa preparar-se não apenas para receber o investimento, mas para dialogar com ele.

Grandes obras não transformam somente a economia. Elas redefinem identidade urbana, relações sociais e expectativas coletiva

O papel da comunidade e do poder público

O verdadeiro sucesso do projeto dependerá de três pilares fundamentais:

  1. Transparência permanente entre empresa, poder público e moradores;

  2. Planejamento urbano antecipado, evitando crescimento desordenado;

  3. Compensações sociais e ambientais efetivas, percebidas no cotidiano da população.

Quando esses elementos caminham juntos, o desenvolvimento deixa de ser imposto e passa a ser compartilhado.

Entre o porto e a cidade

A história mostra que cidades portuárias bem-sucedidas são aquelas que entenderam cedo que desenvolvimento econômico e qualidade de vida não são adversários — são parceiros que precisam ser equilibrados.

A chegada da Coamo ao Pontal representa uma oportunidade real de prosperidade. Mas também exige maturidade coletiva para preservar aquilo que faz de Itapoá um lugar singular: sua relação humana com o território.

O porto trará navios maiores, novos fluxos econômicos e novas perspectivas. Caberá à cidade garantir que, junto com o progresso, permaneçam vivos o pertencimento, a memória e o sentimento de comunidade.

Porque crescer é inevitável. Crescer bem é uma escolha.


02 dezembro 2025

Brasil quase um século sob o comando da direita

 

Por Wilson César Malinoski
Jornalista Registro 5007/SC


Um retrato histórico que desmonta versões distorcidas do debate político

Nos últimos cem anos, o Brasil viveu uma experiência política diferente daquela que costuma ser repetida na arena pública. Quando se abandona a retórica emocional e se observa a cronologia real do poder, torna-se evidente que o país foi governado majoritariamente por uma hegemonia de direita e centro-direita. Ao todo, aproximadamente 88 anos sob controle desse espectro ideológico, enquanto a esquerda governou por cerca de 14 anos.

A análise histórica inicia na República Velha com Artur Bernardes e Washington Luís, sustentados pelos partidos oligárquicos PRM e PRP, alinhados a interesses conservadores e economicamente tradicionais. Em seguida, a Era Vargas, apesar de multifacetada, instituiu um regime centralizador e autoritário que não se enquadra na definição de governo de esquerda do ponto de vista institucional.

No período democrático pós-Segunda Guerra, entre 1946 e 1964, presidentes como Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, apoiados por legendas como PSD, UDN e PSP, mantiveram uma orientação de centro-direita. O golpe militar de 1964 encerrou esse ciclo democrático e instituiu mais de duas décadas de controle absoluto pelas siglas ARENA e PDS, representando um regime claramente conservador.

Com a redemocratização em 1985, esperava-se uma reconfiguração estrutural. Porém, a sucessão já na Nova República manteve a predominância da direita e do centro-direita. José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro preservaram a mesma orientação ideológica, confirmando a continuidade histórica.

A única ruptura temporária dessa hegemonia ocorreu com os mandatos de Lula e Dilma, eleitos pelo Partido dos Trabalhadores, que somaram aproximadamente 14 anos de governo federal. Lula retorna ao cargo em 2023, mas ainda é cedo para definir o impacto histórico desse novo período.

Diante dessas informações, perde sustentação o argumento frequentemente repetido de que o Brasil teria sido dominado pela esquerda. Os dados oficiais demonstram o contrário. A direita conduziu o país pela maior parte do último século e, mesmo nos períodos de alternância eleitoral, a estrutura institucional, econômica e política permaneceu amplamente conservadora.

Reconhecer esse percurso histórico é fundamental para qualificar o debate público e evitar conclusões superficiais que distorcem a realidade e alimentam conflitos baseados em percepções equivocadas.

11 novembro 2025

O Homem e sua Caricatura

Por Wilson César Malinoski – Jornalista




Há um abismo curioso entre o homem e a sua caricatura. A caricatura exagera traços, acentua imperfeições, amplia gestos — mas, paradoxalmente, é nela que às vezes nos reconhecemos mais do que no espelho.

Quando vi meu rosto transformado em traço em cor acinzentada, percebi algo profundo: o desenho não mostrava apenas o que sou por fora, mas o que talvez o olhar humano já pressente por dentro — um temperamento, uma ironia, uma história.

O homem carrega suas dúvidas, seu cansaço, seus erros e esperanças; a caricatura, por outro lado, carrega a síntese disso tudo. É o espelho deformado que revela a verdade que o espelho comum esconde.

No traço do caricaturista há filosofia: ele não desenha rostos, desenha essências. E quando a caricatura se parece tanto conosco, talvez seja o sinal de que já nos tornamos, de alguma forma, personagens de nós mesmos.

02 novembro 2025

Análise Linguística e Ética do termo “Vítima Fatal”

Por Wilson César Malinoski


Nos últimos anos, tornou-se quase automático ler em portais de notícia a expressão “vítima fatal” — especialmente em matérias policiais e de trânsito. É um termo repetido à exaustão, mas que revela um descuido preocupante com a precisão da linguagem jornalística.

Do ponto de vista semântico, “fatal” significa “aquilo que causa a morte”. Logo, um acidente, um disparo, uma facada ou uma queda podem ser fatais, porque são os agentes causadores do óbito. Já a vítima, por definição, é quem sofre o efeito do ato, e não quem o provoca. Portanto, chamar alguém de “vítima fatal” é um contrassenso: a vítima não pode ser “fatal”, pois ela não causa a morte, ela a sofre.

O correto seria dizer:

  • “O acidente teve uma vítima”; “O acidente foi fatal para o motorista”;

  • “A colisão resultou em uma morte”; “A vítima morreu no local”.

Mas o que explica essa insistência?

Trata-se de um vício de linguagem consolidado pela repetição nos noticiários. O termo soa mais “forte”, mais “impactante”, e por isso é replicado sem reflexão. No entanto, o jornalismo responsável deve prezar por clareza, precisão e respeito ao significado das palavras, pois são elas que constroem a credibilidade da informação.

Aos colegas jornalistas,

o conselho é simples, mas essencial:
Revisem as expressões antes de publicar. A força de uma notícia não está no exagero das palavras, mas na fidelidade ao fato. Evitem clichês que empobrecem a linguagem e confundem o leitor. A morte já é suficientemente séria, não precisa ser adjetivada com erros.

Como costumo dizer nas redações:

“Fatal é o erro de quem escreve sem pensar.”

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