A política catarinense, como a brasileira, nunca foi território de linhas retas. É uma composição dinâmica de siglas, interesses e movimentos que, para quem insiste em enxergar pureza ideológica, parece contradição. Mas não é. É funcionamento.
Os exemplos estão postos. Gelson Merísio, que em 2018 esteve com Jair Bolsonaro, hoje se aproxima de Lula. Jorginho Mello, atualmente associado ao bolsonarismo, já pediu votos para Dilma Rousseff e transitou com naturalidade em espaços de governos petistas. João Rodrigues, que rejeitava o MDB dias atrás, agora disputa o partido com intensidade.
E quando se amplia o foco, o cenário fica ainda mais evidente. Jair Bolsonaro já ocupou posições políticas distintas ao longo da carreira. Valdemar Costa Neto, figura central do atual arranjo político, traz no currículo o episódio do Mensalão, ao lado de José Dirceu. Ainda assim, hoje lidera um partido que se apresenta como bastião moral.
O ponto levantado por Frutuoso é preciso, e aqui se reforça: o debate público foi sequestrado por uma lógica rasa. Em vez de propostas, discute-se biografia. Em vez de projetos, caça-se incoerência no passado. A política virou um inventário seletivo de alianças antigas.
Só que a história não sustenta essa simplificação. Luiz Henrique da Silveira venceu em 2002 com apoio do PT e governou com forças que incluíam o então PFL. Esperidião Amin, em 2006, declarou apoio a Lula com convicção pública.
Em 2014, nomes hoje colocados em lados opostos estavam no mesmo palanque. Jorginho Mello, João Rodrigues, Angela Albino, Gelson Merísio e o MDB integravam a mesma coligação, apoiando Raimundo Colombo e Dilma Rousseff.
E no plano municipal, onde a política mostra sua face mais crua, o pragmatismo costuma falar mais alto do que qualquer cartilha ideológica. Ali, alianças se constroem com base em viabilidade, governabilidade e sobrevivência política.
A conclusão, portanto, não é nova, mas precisa ser repetida com honestidade: a política sempre foi feita de negociação, adaptação e rearranjos. Não é desvio, é método.
Ao concordar com Frutuoso Oliveira, o que se reforça aqui é um alerta. O debate político precisa amadurecer. Menos obsessão pelo passado conveniente, mais foco no presente concreto.
Porque no fim, o eleitor não vive de coerência histórica. Vive de resultado.
E isso, definitivamente, não se resolve olhando pelo retrovisor.










