Somos livres ou apenas bem administrados?
Por Wilson Cesar Malinoski - JP 5007/SC
Durante séculos, a escravidão era explícita. Havia correntes visíveis, donos identificáveis e leis que não escondiam o domínio. Hoje, as correntes não fazem barulho. Elas vêm impressas em contratos, boletos, financiamentos, cartões de crédito e cláusulas que poucos leem, mas quase todos assinam.
O sistema mudou de forma, não necessariamente de essência.
Vivemos numa sociedade que promete ascensão ilimitada através do trabalho e do consumo. O discurso dominante, herdado das revoluções industriais e fortalecido pelo pensamento econômico liberal: afirma que a riqueza pode crescer indefinidamente. Basta produzir mais, consumir mais, investir mais.
Mas há um detalhe raramente discutido: é possível expandir riqueza infinita dentro de um planeta finito e de uma sociedade desigual?
Os defensores do capitalismo contemporâneo garantem que sim. A inovação resolveria tudo. O mercado se autorregularia. A competição premiaria os mais eficientes.
A realidade cotidiana conta outra história.
A economia moderna parece funcionar menos como um sistema de prosperidade coletiva e mais como uma máquina permanente de endividamento social. O cidadão nasce consumidor antes mesmo de ser cidadão. Aprende cedo que precisa financiar o estudo, parcelar o carro, hipotecar a casa, antecipar o salário e renegociar o futuro.
A dívida tornou-se o novo instrumento de controle social.
Não se trata apenas de inadimplência. Trata-se de uma engrenagem estrutural que favorece a concentração de renda. Juros sobre juros, cobranças abusivas, vendas casadas disfarçadas de conveniência, contratos opacos, renegociações que ampliam o débito em vez de solucioná-lo, Legal. Regulamentado. Normalizado.
Uma pilhagem sem piratas visíveis.
No setor imobiliário, o retrato é quase pedagógico. Contratos de locação frequentemente protegem quem já possui patrimônio e penalizam quem apenas precisa morar. O locatário assume riscos, taxas, multas, reajustes e obrigações desproporcionais. Ao final do contrato, muitas vezes sai mais pobre do que entrou, mesmo tendo pago rigorosamente pelo direito básico de habitar.
Não é acidente. É desenho estrutural.
A lógica neoliberal transformou direitos em produtos e necessidades humanas em oportunidades de mercado. Moradia vira ativo financeiro. Saúde vira plano. Educação vira investimento individual. Até o tempo livre passou a ser monetizado. O indivíduo tornou-se empreendedor de si mesmo, e, paradoxalmente, mais sozinho do que nunca. Vivemos sob uma economia frenética, que exige produtividade constante e recompensa poucos. Enquanto a tecnologia multiplica a capacidade de produção, a renda concentra-se em escala histórica. Nunca se produziu tanta riqueza. Nunca ela esteve tão acumulada.
A promessa era liberdade econômica. O resultado parece ser dependência permanente.
A pergunta então muda: qual é a saída? Não existe resposta simples, mas talvez existam caminhos. O primeiro é recuperar o sentido coletivo da economia. Mercados são ferramentas, não divindades. Crescimento econômico não pode ser medido apenas por índices financeiros, mas pela qualidade de vida real das pessoas.
O segundo é transparência radical. Contratos compreensíveis, regulação efetiva contra abusos financeiros e proteção equilibrada entre as partes não são obstáculos ao mercado — são condições mínimas de civilização econômica.
O terceiro é cultural. Precisamos questionar o mito da riqueza infinita individual como objetivo social absoluto. Uma sociedade saudável não é aquela onde poucos acumulam sem limite, mas aquela onde muitos vivem com dignidade.
Talvez a maior revolução do século XXI não seja tecnológica, mas moral: reaprender que economia deveria servir às pessoas, e não o contrário.
Porque a verdadeira escravidão moderna não é trabalhar muito.
É trabalhar a vida inteira sem nunca deixar de dever.
E enquanto não fizermos essa pergunta coletivamente, continuaremos acreditando que somos livres, quando talvez sejamos apenas peças eficientes de um sistema que administra nossa dependência.


