Nunca foi tão fácil ter acesso a tudo. Informação, produtos, entretenimento e até validação social estão a poucos cliques de distância. Mas, como alerta o publicitário e pensador Walter Longo, essa facilidade tem um custo pouco discutido: a formação de indivíduos menos tolerantes à frustração e cada vez mais centrados em si mesmos.
Assista o video abaixo que inspirou eu a escrever esta coluna e compartilhar com você
Quando o esforço deixa de ser necessário, o valor das conquistas diminui. Quando o desconforto é evitado, a resiliência enfraquece. E quando o “eu” se sobrepõe ao “nós”, o tecido social começa a se romper.
O comportamento mimado, nesse contexto, deixa de ser apenas uma característica individual e passa a ser um traço coletivo. Vive-se a lógica do direito sem o dever, da opinião sem escuta, da pressa sem responsabilidade. A frustração, que sempre foi parte essencial do amadurecimento humano, passa a ser encarada como algo inaceitável.
A individualização aprofunda ainda mais esse cenário. Não se trata da valorização da liberdade, que é legítima e necessária, mas da perda da noção de pertencimento. O outro deixa de ser parte do mesmo sistema e passa a ser apenas um obstáculo ou, no máximo, um coadjuvante.
Esse fenômeno se reflete em todas as esferas. No cotidiano, aparece na intolerância no trânsito, na impaciência em filas, na dificuldade de convivência no ambiente de trabalho. Na esfera pública, se manifesta na incapacidade de diálogo, na rejeição ao contraditório e na superficialidade dos debates.
Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados, e ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros.
Se a sociedade pode ser comparada a um fluxo, como um rio que conecta e distribui, o momento atual revela uma interrupção desse movimento. Cada indivíduo se fecha em seu próprio espaço, interrompendo a circulação de empatia, responsabilidade e cooperação.
O resultado é uma coletividade fragmentada, onde muitos querem receber, mas poucos estão dispostos a contribuir.
E uma sociedade que não circula, que não compartilha, perde força. Torna-se mais vulnerável, mais manipulável e menos capaz de enfrentar desafios comuns.
É preciso cuidado, no entanto, para não reduzir o problema a uma simples crítica geracional. Essa realidade também é consequência de um modelo que estimula o consumo como identidade, de redes sociais que reforçam comparações constantes e de uma cultura que valoriza mais a aparência do que a essência.
O desafio está em reequilibrar essa equação. Recuperar o valor do coletivo sem sufocar o indivíduo. Reaprender a lidar com limites, com o tempo das coisas e com a frustração como parte do crescimento.
Uma sociedade forte não é aquela onde todos pensam igual, mas aquela onde as diferenças convivem com respeito e responsabilidade compartilhada.
No fim, a pergunta que ecoa é simples, mas profunda: estamos formando cidadãos comprometidos com o todo ou apenas indivíduos treinados para consumir, opinar e exigir?








