27 fevereiro 2026

Entre o porto bilionário e o pátio insuficiente: quem paga a conta é o caminhoneiro

Por Wilson Cesar Malinoski

Foto: Fila de caminhoneiros em Itapoá SC

O debate que começa a tomar conta das rodas de conversa, grupos de motoristas e bastidores políticos de Itapoá não é apenas sobre trânsito. É sobre direitos constitucionais, responsabilidade pública e respeito ao trabalhador que sustenta a engrenagem econômica local. 

De um lado, o anúncio do prefeito Jeferson Garcia / MDB, informando a criação de um pátio de estacionamento com cerca de 6 mil metros quadrados para caminhões ligados à atividade portuária. De outro, a nota oficial da Polícia Militar de Santa Catarina anunciando o retorno das fiscalizações e autuações a partir de 30 de março de 2026.  

Separadamente, parecem medidas administrativas normais. 

Juntas, porém, levantam uma pergunta incômoda:

há estrutura real ou apenas o preparo político para justificar a "cobrança" aos caminhoneiros?

Prefeito. Jeferson Garcia

Foto: Pátio de 6 mil metros quadrados



O direito de ir e vir não é seletivo

A Constituição Federal brasileira assegura o direito fundamental de locomoção, conhecido como direito de ir e vir. Não é um benefício concedido por decreto municipal. É cláusula essencial da cidadania.

E aqui surge o ponto central.

Se aproximadamente em média 1.600 caminhões circulam diariamente nas áreas ligadas ao Porto de Itapoá, um pátio de 6 mil metros quadrados não resolve o problema logístico, apenas cria a aparência de solução.

Na prática, segundo caminhoneiros ouvidos informalmente, o espaço atende poucos veículos. O restante continuará sem destino físico legal para estacionar.

E quando não existe alternativa viável, a fiscalização deixa de ser organização urbana e passa a ser penalização inevitável.

O “campo neutro” que não comporta ninguém

A chamada zona retro portuária, especialmente a Rua José Alves, tratada por muitos motoristas como um “campo neutro”, também não representa solução.

Motoristas relatam que:

A distancia e espaço é curto e insuficiente; não há iluminação adequada; inexistem banheiros ou lavatórios; não existe água potável; o sinal de internet é precário; há insegurança constante e risco de roubos.

A contradição  nas exigências apontada pelos trabalhadores é direta:

“O cavalo mecânico pode ir para casa sem levar multa, mas a carreta não. Então a carreta vai ficar onde?”  Se estacionar é proibido na cidade, se o pátio não comporta todos e se a área alternativa não oferece condições mínimas, proibindo estacionar, cria-se um cenário paradoxal: o caminhoneiro passa a cumprir regras impossíveis ao mesmo tempo.

Quem mais lucra com com o aumento do transporte?

A pergunta feita por diversos motoristas, alguns já cogitando formalizar uma denúncia ao Ministério Público, ecoa como uma cobrança social legítima: quem se beneficia do trabalho destes profissionais?  O Estado arrecada impostos cada vez maior. As empresas movimentam bilhões e publicam recorde de desembarque. O município cresce economicamente. O porto amplia operações. 

Mas o trabalhador que mantém essa engrenagem funcionando relata não ter sequer:

segurança básica; infraestrutura sanitária; local digno para descanso; planejamento urbano compatível com a demanda criada pelo próprio desenvolvimento portuário.

Ordem pública ou transferência de responsabilidade?

A sensação predominante entre caminhoneiros não é de que há organização logística, mas de transferência de responsabilidade. Cria-se um espaço insuficiente. Anuncia-se uma solução administrativa. Em seguida, inicia-se a fiscalização. Politicamente, o roteiro é conhecido.  Primeiro constrói-se o argumento. Depois aplica-se a punição. E assim, o problema estrutural vira infração individual. 

A cidade precisa decidir quem é o problema

Itapoá vive uma transformação acelerada. O crescimento portuário é irreversível e economicamente relevante. Porém, nenhuma cidade pode desejar os benefícios da logística sem assumir os custos humanos dessa mesma logística.  O caminhoneiro não é o causador do problema urbano.  Ele é consequência direta do modelo de desenvolvimento adotado. Se há na média 1.600 caminhões circulando diariamente, isso não representa desordem dos motoristas, representa planejamento público insuficiente diante do próprio crescimento incentivado. 

O alerta que vem da estrada 

O que começa como discussão sobre estacionamento pode rapidamente se tornar debate constitucional, administrativo e social. Quando o trabalhador passa a se sentir encurralado entre decretos, fiscalização e ausência de estrutura, surge inevitavelmente a Judicialização. E talvez a pergunta mais incômoda não seja onde os caminhões vão parar. Mas sim: até que ponto uma cidade pode exigir ordem sem oferecer dignidade mínima a quem sustenta sua economia? 

Porque, no fim das contas, a carga não chega sozinha. O progresso não dirige caminhão. E desenvolvimento sem respeito ao trabalhador deixa de ser avanço, e passa a ser apenas discurso.

20 fevereiro 2026

Navegantes é o primeiro aeroporto da Motiva com carregadores de celular por indução nas longarinas


 Navegantes, fevereiro de 2026 - Carregar o celular durante uma viagem deixou de ser um desafio para quem passa pelo Aeroporto Internacional de Navegantes. O terminal é o primeiro da Motiva a testar um sistema de carregamento por indução instalado diretamente nos braços das longarinas, que são aqueles assentos presentes nas salas de embarque. A novidade foi criada por um colaborador do aeroporto de Navegantes e promete transformar a experiência dos passageiros.

 
A ideia surgiu de forma despretensiosa, mas cheia de propósito. “Eu estava voltando de uma viagem e meu celular estava com menos de 5% de bateria. O aeroporto estava lotado, todas as tomadas estavam ocupadas. Quando me sentei e olhei para o braço da longarina, pensei: ‘poderia ter um carregador aqui”, relembra Douglas Nardelli, analista de aeroportos e criador do projeto.
 
Desenvolvido de forma colaborativa, o sistema é simples e seguro: um módulo de carregamento é instalado no braço da longarina, com toda a fiação protegida e acabamento discreto. Basta encostar o celular sobre o ponto indicado e a bateria começa a ser recarregada, sem a necessidade de cabos.
 
Para os passageiros, a novidade já faz diferença. “Muito prático. Não precisei ficar procurando tomadas nem me preocupar em esquecer cabos. Enquanto esperava meu voo, consegui carregar o celular”, contou Pedro Batista, advogado, que estava a caminho do Rio de Janeiro.
 
O aeroporto preparou um espaço exclusivo onde todas as longarinas contam com a tecnologia de indução. O local já atrai mais movimento e tem gerado comentários positivos. “O principal benefício é oferecer mais pontos de carregamento, inclusive para quem esquece o carregador em casa. Transformamos um espaço antes pouco utilizado em uma área de conveniência para os passageiros”, destaca Douglas.
 
Para a gestão do aeroporto, a iniciativa reforça a importância de valorizar ideias que surgem dentro da própria equipe. “A Motiva está sempre em busca de soluções que ampliem a boa experiência dos passageiros. Projetos como esse mostram como a inovação também nasce de dentro, do olhar atento de quem vive o dia a dia do aeroporto”, afirma Wilson Rocha, gerente do Aeroporto Internacional de Navegantes.
 

A Sociedade da Receita Pronta

 


Quando aprender deixou de ser praticar

Por Wilson Cesar Malinoski JP 5007/SC

Vivemos um tempo curioso. Nunca houve tanto conhecimento disponível; e talvez nunca tenhamos praticado tão pouco.  A reflexão não é nova, mas ganha força nas palavras do consultor e articulista Abraham Shapiro, autor do provocativo artigo “Que pratiquem? Que nada! Eles querem coisa pronta”. Ao ler o texto, não se tem a sensação de uma crítica empresarial apenas. O que se revela ali é um diagnóstico social profundo. Shapiro toca em uma ferida silenciosa do nosso tempo: o desejo coletivo por resultados sem processoE talvez seja justamente esse o retrato da sociedade contemporânea.

O fim da cultura do esforço

Durante décadas, aprender significava repetir. O ofício era construído na tentativa e no erro. O jornalista escrevia mal antes de escrever bem.  O pescador errava a maré antes de conhecer o mar. O trabalhador aprendia fazendo; e fazendo muito.  Hoje, porém, surgiu uma nova mentalidade: a crença de que o conhecimento pode ser consumido como produto pronto.

Cursos rápidos prometem especialistas. Vídeos de um minuto prometem sabedoria. Palestras prometem transformação instantânea. Shapiro observa com precisão quase cirúrgica que muitos não querem aprender de fato, querem apenas receber a solução final, já mastigada, já resolvida, sem o desconforto da prática. E aqui reside o ponto central: aprendizado sem prática é apenas entretenimento intelectual.

A ilusão moderna do saber

Vivemos a era da informação abundante e da experiência escassa.  Nunca se leu tanto sobre liderança. Nunca se falou tanto sobre produtividade.  Nunca se discutiu tanto inovação.  E, paradoxalmente, nunca houve tanta dificuldade em executar. O problema não está na falta de acesso ao conhecimento, mas na rejeição ao esforço repetitivo que transforma teoria em competência.

Praticar exige humildade. Praticar exige aceitar o erro. Praticar exige tempo, e o tempo virou inimigo da ansiedade moderna. O que Shapiro denuncia é algo maior do que o ambiente corporativo: trata-se de uma cultura que prefere parecer preparada a realmente estar preparada.

Empresas, política e sociedade: o mesmo comportamento

A crítica do autor ultrapassa o mundo empresarial e ecoa também na política e na vida pública. Queremos cidades modernas sem planejamento contínuo.   Queremos gestores eficientes sem formação prática.  Queremos mudanças sociais profundas sem participação cotidiana.  Pedimos soluções rápidas para problemas históricos.  A sociedade passou a acreditar que transformação vem de discursos fortes, quando na verdade ela nasce de ações pequenas, repetidas diariamente.  Não existe desenvolvimento coletivo sem prática coletiva.

O medo silencioso de tentar

Há ainda um elemento humano pouco discutido: o medo. Praticar significa expor-se ao erro, e o erro tornou-se socialmente intolerável.  Nas redes sociais, todos precisam parecer prontos, seguros e bem-sucedidos.  Assim, muitos preferem consumir novos conhecimentos indefinidamente, porque estudar dá sensação de evolução sem o risco do fracasso.  Aprender virou confortável. Praticar continua sendo difícil. E talvez por isso tanta gente permaneça parada, apesar de permanentemente “se preparando”.

A concordância inevitável

Concordo com Abraham Shapiro quando ele desmonta a fantasia da aprendizagem automática. Treinamento não transforma ninguém sozinho. Curso não muda comportamento. Motivação não substitui disciplina.  O verdadeiro aprendizado acontece depois que a palestra termina, quando ninguém está olhando, quando resta apenas o indivíduo diante do trabalho cotidiano. Competência nasce no silêncio da repetição.

O desafio do nosso tempo

Talvez o maior desafio contemporâneo não seja ensinar mais, mas reaprender a praticar. Precisamos recuperar a dignidade do processo. Aceitar que não existem atalhos para o domínio de uma profissão, para a maturidade política ou para a construção de uma sociedade mais justa.  Porque, no fundo, a pergunta levantada por Shapiro não é empresarial. Ela é civilizatória:

queremos realmente evoluir ou apenas consumir a sensação de evolução?

Enquanto buscarmos respostas prontas, continuaremos vivendo numa sociedade cheia de discursos e carente de realização. Aprender exige coragem. Praticar exige caráter. E crescer continua sendo,  felizmente, um trabalho artesanal.

19 fevereiro 2026

A Sociedade da Dívida

 


Somos livres ou apenas bem administrados?

Por Wilson Cesar Malinoski - JP 5007/SC


Há uma pergunta incômoda que evitamos fazer porque ela desmonta quase tudo o que aprendemos a acreditar:

Nossa sociedade foi construída sobre a liberdade ou sobre uma sofisticada estrutura de servidão?

Durante séculos, a escravidão era explícita. Havia correntes visíveis, donos identificáveis e leis que não escondiam o domínio. Hoje, as correntes não fazem barulho. Elas vêm impressas em contratos, boletos, financiamentos, cartões de crédito e cláusulas que poucos leem, mas quase todos assinam.

O sistema mudou de forma, não necessariamente de essência.

Vivemos numa sociedade que promete ascensão ilimitada através do trabalho e do consumo. O discurso dominante, herdado das revoluções industriais e fortalecido pelo pensamento econômico liberal: afirma que a riqueza pode crescer indefinidamente. Basta produzir mais, consumir mais, investir mais.

Mas há um detalhe raramente discutido: é possível expandir riqueza infinita dentro de um planeta finito e de uma sociedade desigual?

Os defensores do capitalismo contemporâneo garantem que sim. A inovação resolveria tudo. O mercado se autorregularia. A competição premiaria os mais eficientes.

A realidade cotidiana conta outra história.

A economia moderna parece funcionar menos como um sistema de prosperidade coletiva e mais como uma máquina permanente de endividamento social. O cidadão nasce consumidor antes mesmo de ser cidadão. Aprende cedo que precisa financiar o estudo, parcelar o carro, hipotecar a casa, antecipar o salário e renegociar o futuro.

A dívida tornou-se o novo instrumento de controle social.

Não se trata apenas de inadimplência. Trata-se de uma engrenagem estrutural que favorece a concentração de renda. Juros sobre juros, cobranças abusivas, vendas casadas disfarçadas de conveniência, contratos opacos, renegociações que ampliam o débito em vez de solucioná-lo, Legal. Regulamentado. Normalizado.

Uma pilhagem sem piratas visíveis.

No setor imobiliário, o retrato é quase pedagógico. Contratos de locação frequentemente protegem quem já possui patrimônio e penalizam quem apenas precisa morar. O locatário assume riscos, taxas, multas, reajustes e obrigações desproporcionais. Ao final do contrato, muitas vezes sai mais pobre do que entrou, mesmo tendo pago rigorosamente pelo direito básico de habitar.

Não é acidente. É desenho estrutural.

A lógica neoliberal transformou direitos em produtos e necessidades humanas em oportunidades de mercado. Moradia vira ativo financeiro. Saúde vira plano. Educação vira investimento individual. Até o tempo livre passou a ser monetizado. O indivíduo tornou-se empreendedor de si mesmo, e, paradoxalmente, mais sozinho do que nunca. Vivemos sob uma economia frenética, que exige produtividade constante e recompensa poucos. Enquanto a tecnologia multiplica a capacidade de produção, a renda concentra-se em escala histórica. Nunca se produziu tanta riqueza. Nunca ela esteve tão acumulada.

A promessa era liberdade econômica. O resultado parece ser dependência permanente.

A pergunta então muda: qual é a saída? Não existe resposta simples, mas talvez existam caminhos. O primeiro é recuperar o sentido coletivo da economia. Mercados são ferramentas, não divindades. Crescimento econômico não pode ser medido apenas por índices financeiros, mas pela qualidade de vida real das pessoas.

O segundo é transparência radical. Contratos compreensíveis, regulação efetiva contra abusos financeiros e proteção equilibrada entre as partes não são obstáculos ao mercado — são condições mínimas de civilização econômica.

O terceiro é cultural. Precisamos questionar o mito da riqueza infinita individual como objetivo social absoluto. Uma sociedade saudável não é aquela onde poucos acumulam sem limite, mas aquela onde muitos vivem com dignidade.

Talvez a maior revolução do século XXI não seja tecnológica, mas moral: reaprender que economia deveria servir às pessoas, e não o contrário.

Porque a verdadeira escravidão moderna não é trabalhar muito.

É trabalhar a vida inteira sem nunca deixar de dever.

E enquanto não fizermos essa pergunta coletivamente, continuaremos acreditando que somos livres, quando talvez sejamos apenas peças eficientes de um sistema que administra nossa dependência.

04 janeiro 2026

O Sol Não Tem Dono

 


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC

Tudo no universo conhecido pulsa a partir de uma fonte primaz: a luz do sol. Não apenas como fenômeno físico, mas como símbolo ancestral de energia, de continuidade e de pertencimento coletivo. O sol nasce para todos, sem distinção de fronteiras, crenças ou posses. Ainda assim, há quem se comporte como se essa luz tivesse dono, como se o dia fosse um privilégio privado. Talvez aí resida um dos males mais persistentes do mundo contemporâneo.

Sob o olhar sociológico, essa apropriação simbólica do sol revela a lógica da desigualdade internalizada. Vivemos em sociedades que naturalizam o acúmulo, o privilégio e a exclusão, ensinando, desde cedo, que alguns merecem mais do que outros. O sol, que deveria ser o grande equalizador da existência, acaba ofuscado por muros, discursos e estruturas que concentram poder e visibilidade em poucas mãos. A luz é a mesma, mas o acesso à sombra confortável e à água fresca não é.

A antropologia nos lembra que, desde as primeiras civilizações, o sol foi divindade, calendário e orientação. Povos antigos compreendiam que sua força era coletiva. Sem ele, não havia colheita, nem tempo, nem vida social organizada. Ao transformar essa energia comum em símbolo de posse, o ser humano moderno rompe com um pacto ancestral de pertencimento à natureza e ao outro. Passa a agir não como parte do sistema, mas como seu proprietário.

Do ponto de vista psicológico, a ilusão de que o sol nasce só para mim surge do medo. Medo da escassez, da irrelevância, do esquecimento. Para muitos, monopolizar a luz, seja em forma de poder, status ou narrativa, é uma tentativa desesperada de afirmar a própria existência. O problema é que, ao fazer isso, projeta-se sombra sobre os demais. E sombra prolongada adoece relações, comunidades e consciências.

Na vida real, essa lógica se repete nos pequenos gestos cotidianos. No trânsito onde ninguém cede passagem, na política onde poucos falam por muitos, no mercado onde o lucro se sobrepõe à dignidade, e até nas relações pessoais marcadas pela competição permanente. O sol continua nascendo para todos, mas há quem insista em fechar as janelas alheias para que sua própria claridade pareça maior.

Talvez o verdadeiro avanço civilizatório não esteja em conquistar novas fontes de energia, mas em reaprender o óbvio. A luz não é propriedade, é partilha. O sol não escolhe a quem iluminar. Quando o ser humano tenta fazê-lo, transforma energia vital em instrumento de dominação. E esse, ao fim e ao cabo, segue sendo um dos grandes males do mundo.

Entre Metas e Expectativas: o Risco Invisível da Virada do Ano



O ano de 2025 se despede sob um céu carregado. Pressões sociais acumuladas, cobranças silenciosas e a velha promessa de que o próximo calendário trará redenção. Em 2026, deposita-se mais do que esperança: projeta-se uma expectativa quase messiânica de mudança. É aí que mora o risco.

Do ponto de vista social, as metas que desenhamos raramente são apenas nossas. Elas nascem contaminadas pela lógica da comparação, pela vitrine das conquistas alheias e pela obrigação difusa de “dar certo”. A sociedade da performance não pune apenas o fracasso público; ela corrói, aos poucos, a autoestima privada. Quando os objetivos passam a responder mais ao olhar do outro do que ao sentido íntimo da própria trajetória, deixam de ser projeto e viram peso.

Na dimensão psicológica, o problema não está em sonhar alto, mas em amarrar a felicidade a um resultado fechado, rígido, quase contratual com o futuro. Expectativas infladas e inflexíveis geram ansiedade crônica e a sensação de derrota antecipada. Metas saudáveis precisam respirar: devem ser adaptáveis, divididas em processos e acompanhadas de consciência emocional. Caso contrário, aquilo que deveria orientar se transforma em veneno lento.

A filosofia ajuda a colocar os pés no chão. Dos estoicos ao existencialismo, a lição é recorrente: não controlamos o desfecho, apenas a postura diante do caminho. A vida não se curva às nossas projeções. É o sujeito que precisa ajustar suas expectativas à realidade em movimento, sem abdicar da responsabilidade pelas próprias escolhas.

A pergunta que ecoa na virada do ano é direta: devo reduzir minhas expectativas para ser feliz? A resposta exige maturidade. Não se trata de encolher sonhos, mas de retirar da linha de chegada o monopólio do sentido. Metas ambiciosas são necessárias, desde que funcionem como direção, não como condição para a dignidade pessoal.

Entrar em 2026 com menos ilusões não significa entrar com menos esperança. Significa compreender que felicidade não é prêmio por desempenho, mas consequência de um modo mais lúcido de caminhar. Em tempos de tanta pressão, talvez o verdadeiro avanço esteja em seguir em frente sem se envenenar pelo próprio ideal de sucesso.

02 janeiro 2026

Iniciativa irá reconhecer projetos que impulsionam o turismo negro no país


 Itapoá - 02 de Janeiro 2026

O Ministério da Igualdade Racial (MIR), irá selecionar 50 iniciativas de afroturismo por meio do 1º Prêmio Rotas Negras. O edital, que é uma parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), destinará mais de R$1,6 milhão para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades negras. As inscrições podem ser feitas até 18 de janeiro.

 

Com o intuito de impulsionar o turismo negro no país, a seleção do 1º Prêmio Rotas Negras irá reconhecer e valorizar projetos que evidenciam o legado africano, afro-diaspórico e afro-brasileiro, fortalecendo espaços de memória e resistência, sejam eles urbanos ou rurais.

 

A ação reforça o compromisso do MIR com a implementação e articulação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) em todo o território nacional. O edital conta com um investimento total de R$1,62 milhão, executados pela UFSM, direcionados à premiação de iniciativas da sociedade civil, municípios, consórcios intermunicipais e estados.

 

Cada uma das 50 iniciativas selecionadas receberá um prêmio em dinheiro, com valores que variam entre R$15 mil e R$70 mil, a depender da categoria de inscrição. O recurso será repassado na modalidade de doação sem encargo, garantindo que o valor seja aplicado diretamente no fortalecimento da iniciativa apresentada e na valorização da cultura negra.


LANÇAMENTO

 

Apresentado oficialmente durante o Seminário Rotas Negras 2025, que foi realizado em Brasília nos dias 26 e 27 de novembro, o prêmio foi um dos destaques no evento, que debateu o tema “Afroturismo e Desenvolvimento Sustentável: Estratégias para a Promoção da Igualdade Racial”. Além da apresentação do edital, o encontro marcou a posse do Comitê Gestor do Programa e a divulgação do 1º Relatório Técnico do setor, reunindo gestores e lideranças em torno do turismo como vetor de reparação e justiça econômica.

 

Esta iniciativa é mais uma entrega no âmbito do Novembro Negro, materializando as diretrizes do Decreto nº 12.277/2024. A iniciativa busca impulsionar o afroturismo no País, de forma que valorize a cultura afro-brasileira nos cenários nacional e internacional. 

 

 

1º PRÊMIO ROTAS NEGRAS

 

Tem como objetivo selecionar e premiar 50 iniciativas que fortaleçam o afroturismo como uma modalidade de empoderamento e visibilidade da história e cultura negra no Brasil. A premiação busca reconhecer ações que evidenciem o legado afro-diaspórico e afro-brasileiro em suas diversas manifestações, materiais e imateriais, como tradições, ritmos musicais, gastronomia, celebrações e religiosidades.

 

O escopo do prêmio abrange uma vasta gama de experiências, incluindo o turismo em Comunidades Remanescentes de Quilombo e Povos de Terreiro, a preservação de Clubes Sociais Negros e a criação de rotas urbanas ou rurais de memória e história. Ao valorizar a herança negra na construção da identidade nacional, a iniciativa visa impulsionar o desenvolvimento sustentável dessas comunidades e promover um turismo que respeite e potencialize o legado ancestral.

 

Rotas Negras – Instituído pelo Decreto nº 12.277/2024, o Programa Rotas Negras é uma ação estratégica do Governo do Brasil para estruturar e fortalecer o turismo negro no País. Seu objetivo central é valorizar a memória e a cultura afro-brasileira, utilizando o turismo como ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de renda e emprego.

 

Coordenado pelo Ministério da Igualdade Racial, o programa é desenvolvido de forma intersetorial, envolvendo ministérios como o do Turismo (MTur), Cultura (MinC), Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), além de órgãos como a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). A iniciativa busca dar visibilidade a roteiros que envolvem comunidades quilombolas, de terreiro e pontos de memória, promovendo o reconhecimento do protagonismo negro na formação da sociedade brasileira.





31 dezembro 2025

Mais de 1 milhão de pessoas celebram o primeiro dia do Réveillon de Fortaleza nos polos Conjunto Ceará, Messejana e Aterro da Praia de Iracema

 

Réveillon descentralizado é sucesso e antecipa o clima dos 300 anos da Capital cearense; programação segue nesta quarta-feira (31)

A primeira noite do Réveillon Fortaleza 2026, realizada nesta segunda-feira (30/12), foi marcada por muita música, alegria e grande participação popular nos polos do Aterro da Praia de Iracema, Conjunto Ceará e Messejana. Ao todo, mais de 1 milhão de pessoas participaram das celebrações nos três pontos da cidade, confirmando o sucesso da proposta de descentralização da festa e o fortalecimento das comemorações nos bairros.
 
No Polo Messejana, cerca de 50 mil pessoas acompanharam a programação ao longo da noite, vibrando ao som de Gustavo Serpa, Vanessa A Cantora com participação de Paulinha Ravett e Vicente Nery. Na sequência, Xand Avião levou o público ao delírio com seus grandes sucessos, e o encerramento ficou por conta de Taty Girl, que manteve a animação até o fim da programação.
 
Já no Conjunto Ceará, aproximadamente  80 mil pessoas prestigiaram os shows de Dipas e Di Ferreira, Marcinho e da dupla Luis Marcelo e Gabriel. Em um dos momentos mais aguardados da noite, a banda Seu Desejo emocionou o público, e Natanzinho Lima encerrou a programação colocando todo mundo para cantar e dançar, coroando o sucesso do polo.
 
No Aterro da Praia de Iracema, milhares de pessoas acompanharam uma sequência de grandes apresentações que reuniram diferentes estilos musicais e reforçaram o protagonismo do espaço como principal palco do Réveillon de Fortaleza. A energia do público, aliada à estrutura e organização do evento, marcou a primeira noite de festa na orla.
 
“Esse primeiro dia de Réveillon mostra a força de uma Fortaleza que celebra unida, em todos os seus territórios. A descentralização da festa garante mais acesso, movimenta a economia dos bairros e reforça nosso compromisso com uma cidade mais inclusiva, acolhedora e já no clima dos 300 anos que vamos celebrar”, destacou o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão. 
 
A programação continua nesta terça-feira (31/12), no Aterro da Praia de Iracema. O cantor Seu Jorge comanda o momento da virada, com um espetáculo de 10 minutos de fogos silenciosos, realizado no espigão da João Cordeiro, marcando a chegada de 2026. A noite segue com grandes atrações, consolidando o Réveillon Fortaleza como um dos maiores e mais democráticos do país.
 
Confira a programação no Aterro da Praia de Iracema:
 
17h – Marcos Lessa
17h55 – Nayra Costa
18h50 – Transacionais
19h55 – Paralamas do Sucesso
21h30 – Claudia Leitte
23h10 – Seu Jorge
00h10 – Seu Jorge
01h – Matuê
2h35 – Wesley Safadão
4h30 – Taty Girl

Quando o calendário vira, a cultura se revela


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC


Mudar o calendário de 2025 para 2026 é, em aparência, um gesto banal. Um número substitui o outro, páginas se encerram, agendas se renovam. Mas a cultura humana nunca lidou com o tempo de forma neutra. O calendário não é apenas uma ferramenta de organização, é um artefato simbólico que estrutura expectativas, medos, promessas e ilusões coletivas.

Do ponto de vista sociológico, a virada do ano funciona como um ritual moderno. Uma pausa consentida para reorganizar narrativas pessoais e sociais. É quando sociedades inteiras autorizam a si mesmas a recomeçar, mesmo sem ter mudado as condições objetivas da vida. A data cria a sensação de ruptura, ainda que o mundo siga contínuo e indiferente aos nossos marcos artificiais.

Na filosofia, o tempo nunca foi apenas cronológico. Ele é vivido, sentido, interpretado. A passagem de 2025 para 2026 carrega mais do que dias futuros; carrega a esperança de que o novo número seja capaz de corrigir erros antigos. É a velha crença de que o tempo, por si só, redime. Mas o tempo não transforma, ele apenas expõe. O que muda é a consciência que se tem dele.

Já a psicologia humana se agarra ao calendário como mecanismo de sobrevivência emocional. Precisamos de marcos para suportar o caos, de datas para nomear começos, de fins para elaborar perdas. A virada do ano oferece um alívio simbólico: a sensação de controle sobre aquilo que, no fundo, não controlamos.

Assim, ao mudar de 2025 para 2026, não é o tempo que muda, somos nós que pedimos licença para tentar mudar junto com ele. O calendário vira, mas a responsabilidade permanece. E talvez a verdadeira virada não esteja no número que chega, mas na coragem de não delegar ao tempo aquilo que só a ação humana pode transformar.


12 dezembro 2025

COAMO chega ao Pontal

Foto: Divulgação 

 Desenvolvimento anunciado e o desafio de crescer sem perder identidade

Por Wilson César Malinoski JP 5007/SC

Itapoá vive um daqueles momentos raros da história em que o futuro deixa de ser promessa e passa a ter endereço, investimento e cronograma. A confirmação do Terminal Portuário da Coamo Agroindustrial Cooperativa no bairro Pontal representa, sem dúvida, um divisor de águas para o município e para todo o litoral norte catarinense.

Não se trata apenas da instalação de mais um porto. Trata-se da chegada de uma das maiores cooperativas agroindustriais da América Latina a uma cidade que, até poucas décadas atrás, era reconhecida essencialmente como balneário de veraneio e refúgio de pescadores artesanais.

O anúncio do empreendimento confirma algo que especialistas já observavam: Itapoá deixou de ser apenas destino turístico para tornar-se peça estratégica na logística nacional de exportação.



O lado positivo: 

Investimento, emprego e protagonismo regional

O projeto prevê investimentos bilionários e uma cadeia econômica capaz de movimentar setores inteiros da economia local. Durante a fase de obras, a expectativa é de geração significativa de empregos diretos e indiretos, além do fortalecimento do comércio, serviços, construção civil e logística.

Para uma cidade em crescimento acelerado, o terminal surge como oportunidade concreta de:

  • ampliação da arrecadação municipal;

  • valorização profissional da mão de obra local;

  • atração de novas empresas e fornecedores;

  • consolidação de Itapoá como polo logístico do Sul do Brasil.

A presença da Coamo traz também um elemento importante: previsibilidade econômica. Cooperativas desse porte operam com planejamento de longo prazo, estabilidade operacional e compromisso institucional; fatores que costumam reduzir ciclos de crescimento artificial ou especulativo.

Em linguagem simples: o investimento não chega como aventura empresarial, mas como projeto estruturante.

O outro lado da balança: crescimento exige responsabilidade

Mas todo bônus carrega um ônus — e ignorar essa equação seria falhar com a missão do jornalismo.

O bairro Pontal, escolhido pela localização estratégica junto à Baía da Babitonga, possui características sociais e ambientais próprias. Ali convivem moradores antigos, pescadores, famílias tradicionais e novos residentes que escolheram a região pela tranquilidade e pela relação direta com o mar.

A chegada de um terminal portuário naturalmente levanta questionamentos legítimos:

  • aumento do tráfego pesado;

  • pressão sobre infraestrutura urbana;

  • mudanças no perfil imobiliário;

  • impactos na pesca artesanal;

  • transformações culturais inevitáveis.

Não são resistências ao progresso. São perguntas que toda comunidade madura precisa fazer antes de atravessar uma mudança histórica.

Um empreendimento que vai acontecer

O ponto central do debate atual já não é mais se o porto será construído, mas como essa transformação será conduzida.

Os processos ambientais, audiências públicas e estudos técnicos indicam que o projeto avança dentro dos ritos legais. O cenário aponta para um empreendimento que tende a se consolidar nos próximos anos.

Diante disso, surge uma reflexão necessária: a cidade precisa preparar-se não apenas para receber o investimento, mas para dialogar com ele.

Grandes obras não transformam somente a economia. Elas redefinem identidade urbana, relações sociais e expectativas coletiva

O papel da comunidade e do poder público

O verdadeiro sucesso do projeto dependerá de três pilares fundamentais:

  1. Transparência permanente entre empresa, poder público e moradores;

  2. Planejamento urbano antecipado, evitando crescimento desordenado;

  3. Compensações sociais e ambientais efetivas, percebidas no cotidiano da população.

Quando esses elementos caminham juntos, o desenvolvimento deixa de ser imposto e passa a ser compartilhado.

Entre o porto e a cidade

A história mostra que cidades portuárias bem-sucedidas são aquelas que entenderam cedo que desenvolvimento econômico e qualidade de vida não são adversários — são parceiros que precisam ser equilibrados.

A chegada da Coamo ao Pontal representa uma oportunidade real de prosperidade. Mas também exige maturidade coletiva para preservar aquilo que faz de Itapoá um lugar singular: sua relação humana com o território.

O porto trará navios maiores, novos fluxos econômicos e novas perspectivas. Caberá à cidade garantir que, junto com o progresso, permaneçam vivos o pertencimento, a memória e o sentimento de comunidade.

Porque crescer é inevitável. Crescer bem é uma escolha.


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