Quando aprender deixou de ser praticar
Por Wilson Cesar Malinoski JP 5007/SC
Vivemos um tempo curioso. Nunca houve tanto conhecimento disponível; e talvez nunca tenhamos praticado tão pouco. A reflexão não é nova, mas ganha força nas palavras do consultor e articulista Abraham Shapiro, autor do provocativo artigo “Que pratiquem? Que nada! Eles querem coisa pronta”. Ao ler o texto, não se tem a sensação de uma crítica empresarial apenas. O que se revela ali é um diagnóstico social profundo. Shapiro toca em uma ferida silenciosa do nosso tempo: o desejo coletivo por resultados sem processo. E talvez seja justamente esse o retrato da sociedade contemporânea.
O fim da cultura do esforço
Durante décadas, aprender significava repetir. O ofício era construído na tentativa e no erro. O jornalista escrevia mal antes de escrever bem. O pescador errava a maré antes de conhecer o mar. O trabalhador aprendia fazendo; e fazendo muito. Hoje, porém, surgiu uma nova mentalidade: a crença de que o conhecimento pode ser consumido como produto pronto.
Cursos rápidos prometem especialistas. Vídeos de um minuto prometem sabedoria. Palestras prometem transformação instantânea. Shapiro observa com precisão quase cirúrgica que muitos não querem aprender de fato, querem apenas receber a solução final, já mastigada, já resolvida, sem o desconforto da prática. E aqui reside o ponto central: aprendizado sem prática é apenas entretenimento intelectual.
A ilusão moderna do saber
Vivemos a era da informação abundante e da experiência escassa. Nunca se leu tanto sobre liderança. Nunca se falou tanto sobre produtividade. Nunca se discutiu tanto inovação. E, paradoxalmente, nunca houve tanta dificuldade em executar. O problema não está na falta de acesso ao conhecimento, mas na rejeição ao esforço repetitivo que transforma teoria em competência.
Praticar exige humildade. Praticar exige aceitar o erro. Praticar exige tempo, e o tempo virou inimigo da ansiedade moderna. O que Shapiro denuncia é algo maior do que o ambiente corporativo: trata-se de uma cultura que prefere parecer preparada a realmente estar preparada.
Empresas, política e sociedade: o mesmo comportamento
A crítica do autor ultrapassa o mundo empresarial e ecoa também na política e na vida pública. Queremos cidades modernas sem planejamento contínuo. Queremos gestores eficientes sem formação prática. Queremos mudanças sociais profundas sem participação cotidiana. Pedimos soluções rápidas para problemas históricos. A sociedade passou a acreditar que transformação vem de discursos fortes, quando na verdade ela nasce de ações pequenas, repetidas diariamente. Não existe desenvolvimento coletivo sem prática coletiva.
O medo silencioso de tentar
Há ainda um elemento humano pouco discutido: o medo. Praticar significa expor-se ao erro, e o erro tornou-se socialmente intolerável. Nas redes sociais, todos precisam parecer prontos, seguros e bem-sucedidos. Assim, muitos preferem consumir novos conhecimentos indefinidamente, porque estudar dá sensação de evolução sem o risco do fracasso. Aprender virou confortável. Praticar continua sendo difícil. E talvez por isso tanta gente permaneça parada, apesar de permanentemente “se preparando”.
A concordância inevitável
Concordo com Abraham Shapiro quando ele desmonta a fantasia da aprendizagem automática. Treinamento não transforma ninguém sozinho. Curso não muda comportamento. Motivação não substitui disciplina. O verdadeiro aprendizado acontece depois que a palestra termina, quando ninguém está olhando, quando resta apenas o indivíduo diante do trabalho cotidiano. Competência nasce no silêncio da repetição.
O desafio do nosso tempo
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja ensinar mais, mas reaprender a praticar. Precisamos recuperar a dignidade do processo. Aceitar que não existem atalhos para o domínio de uma profissão, para a maturidade política ou para a construção de uma sociedade mais justa. Porque, no fundo, a pergunta levantada por Shapiro não é empresarial. Ela é civilizatória:
queremos realmente evoluir ou apenas consumir a sensação de evolução?
Enquanto buscarmos respostas prontas, continuaremos vivendo numa sociedade cheia de discursos e carente de realização. Aprender exige coragem. Praticar exige caráter. E crescer continua sendo, felizmente, um trabalho artesanal.



