Por: Wilson Cesar Malinoski
Jornalista - 5007/SC
Tudo no universo conhecido pulsa a partir de uma fonte primaz: a luz do sol. Não apenas como fenômeno físico, mas como símbolo ancestral de energia, de continuidade e de pertencimento coletivo. O sol nasce para todos, sem distinção de fronteiras, crenças ou posses. Ainda assim, há quem se comporte como se essa luz tivesse dono, como se o dia fosse um privilégio privado. Talvez aí resida um dos males mais persistentes do mundo contemporâneo.
Sob o olhar sociológico, essa apropriação simbólica do sol revela a lógica da desigualdade internalizada. Vivemos em sociedades que naturalizam o acúmulo, o privilégio e a exclusão, ensinando, desde cedo, que alguns merecem mais do que outros. O sol, que deveria ser o grande equalizador da existência, acaba ofuscado por muros, discursos e estruturas que concentram poder e visibilidade em poucas mãos. A luz é a mesma, mas o acesso à sombra confortável e à água fresca não é.
A antropologia nos lembra que, desde as primeiras civilizações, o sol foi divindade, calendário e orientação. Povos antigos compreendiam que sua força era coletiva. Sem ele, não havia colheita, nem tempo, nem vida social organizada. Ao transformar essa energia comum em símbolo de posse, o ser humano moderno rompe com um pacto ancestral de pertencimento à natureza e ao outro. Passa a agir não como parte do sistema, mas como seu proprietário.
Do ponto de vista psicológico, a ilusão de que o sol nasce só para mim surge do medo. Medo da escassez, da irrelevância, do esquecimento. Para muitos, monopolizar a luz, seja em forma de poder, status ou narrativa, é uma tentativa desesperada de afirmar a própria existência. O problema é que, ao fazer isso, projeta-se sombra sobre os demais. E sombra prolongada adoece relações, comunidades e consciências.
Na vida real, essa lógica se repete nos pequenos gestos cotidianos. No trânsito onde ninguém cede passagem, na política onde poucos falam por muitos, no mercado onde o lucro se sobrepõe à dignidade, e até nas relações pessoais marcadas pela competição permanente. O sol continua nascendo para todos, mas há quem insista em fechar as janelas alheias para que sua própria claridade pareça maior.
Talvez o verdadeiro avanço civilizatório não esteja em conquistar novas fontes de energia, mas em reaprender o óbvio. A luz não é propriedade, é partilha. O sol não escolhe a quem iluminar. Quando o ser humano tenta fazê-lo, transforma energia vital em instrumento de dominação. E esse, ao fim e ao cabo, segue sendo um dos grandes males do mundo.