04 janeiro 2026

Entre Metas e Expectativas: o Risco Invisível da Virada do Ano



O ano de 2025 se despede sob um céu carregado. Pressões sociais acumuladas, cobranças silenciosas e a velha promessa de que o próximo calendário trará redenção. Em 2026, deposita-se mais do que esperança: projeta-se uma expectativa quase messiânica de mudança. É aí que mora o risco.

Do ponto de vista social, as metas que desenhamos raramente são apenas nossas. Elas nascem contaminadas pela lógica da comparação, pela vitrine das conquistas alheias e pela obrigação difusa de “dar certo”. A sociedade da performance não pune apenas o fracasso público; ela corrói, aos poucos, a autoestima privada. Quando os objetivos passam a responder mais ao olhar do outro do que ao sentido íntimo da própria trajetória, deixam de ser projeto e viram peso.

Na dimensão psicológica, o problema não está em sonhar alto, mas em amarrar a felicidade a um resultado fechado, rígido, quase contratual com o futuro. Expectativas infladas e inflexíveis geram ansiedade crônica e a sensação de derrota antecipada. Metas saudáveis precisam respirar: devem ser adaptáveis, divididas em processos e acompanhadas de consciência emocional. Caso contrário, aquilo que deveria orientar se transforma em veneno lento.

A filosofia ajuda a colocar os pés no chão. Dos estoicos ao existencialismo, a lição é recorrente: não controlamos o desfecho, apenas a postura diante do caminho. A vida não se curva às nossas projeções. É o sujeito que precisa ajustar suas expectativas à realidade em movimento, sem abdicar da responsabilidade pelas próprias escolhas.

A pergunta que ecoa na virada do ano é direta: devo reduzir minhas expectativas para ser feliz? A resposta exige maturidade. Não se trata de encolher sonhos, mas de retirar da linha de chegada o monopólio do sentido. Metas ambiciosas são necessárias, desde que funcionem como direção, não como condição para a dignidade pessoal.

Entrar em 2026 com menos ilusões não significa entrar com menos esperança. Significa compreender que felicidade não é prêmio por desempenho, mas consequência de um modo mais lúcido de caminhar. Em tempos de tanta pressão, talvez o verdadeiro avanço esteja em seguir em frente sem se envenenar pelo próprio ideal de sucesso.

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