31 dezembro 2025

Quando o calendário vira, a cultura se revela


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC


Mudar o calendário de 2025 para 2026 é, em aparência, um gesto banal. Um número substitui o outro, páginas se encerram, agendas se renovam. Mas a cultura humana nunca lidou com o tempo de forma neutra. O calendário não é apenas uma ferramenta de organização, é um artefato simbólico que estrutura expectativas, medos, promessas e ilusões coletivas.

Do ponto de vista sociológico, a virada do ano funciona como um ritual moderno. Uma pausa consentida para reorganizar narrativas pessoais e sociais. É quando sociedades inteiras autorizam a si mesmas a recomeçar, mesmo sem ter mudado as condições objetivas da vida. A data cria a sensação de ruptura, ainda que o mundo siga contínuo e indiferente aos nossos marcos artificiais.

Na filosofia, o tempo nunca foi apenas cronológico. Ele é vivido, sentido, interpretado. A passagem de 2025 para 2026 carrega mais do que dias futuros; carrega a esperança de que o novo número seja capaz de corrigir erros antigos. É a velha crença de que o tempo, por si só, redime. Mas o tempo não transforma, ele apenas expõe. O que muda é a consciência que se tem dele.

Já a psicologia humana se agarra ao calendário como mecanismo de sobrevivência emocional. Precisamos de marcos para suportar o caos, de datas para nomear começos, de fins para elaborar perdas. A virada do ano oferece um alívio simbólico: a sensação de controle sobre aquilo que, no fundo, não controlamos.

Assim, ao mudar de 2025 para 2026, não é o tempo que muda, somos nós que pedimos licença para tentar mudar junto com ele. O calendário vira, mas a responsabilidade permanece. E talvez a verdadeira virada não esteja no número que chega, mas na coragem de não delegar ao tempo aquilo que só a ação humana pode transformar.


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