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Desenvolvimento anunciado e o desafio de crescer sem perder identidade
Por Wilson César Malinoski JP 5007/SC
Itapoá vive um daqueles momentos raros da história em que o futuro deixa de ser promessa e passa a ter endereço, investimento e cronograma. A confirmação do Terminal Portuário da Coamo Agroindustrial Cooperativa no bairro Pontal representa, sem dúvida, um divisor de águas para o município e para todo o litoral norte catarinense.
Não se trata apenas da instalação de mais um porto. Trata-se da chegada de uma das maiores cooperativas agroindustriais da América Latina a uma cidade que, até poucas décadas atrás, era reconhecida essencialmente como balneário de veraneio e refúgio de pescadores artesanais.
O anúncio do empreendimento confirma algo que especialistas já observavam: Itapoá deixou de ser apenas destino turístico para tornar-se peça estratégica na logística nacional de exportação.
O lado positivo:
Investimento, emprego e protagonismo regional
O projeto prevê investimentos bilionários e uma cadeia econômica capaz de movimentar setores inteiros da economia local. Durante a fase de obras, a expectativa é de geração significativa de empregos diretos e indiretos, além do fortalecimento do comércio, serviços, construção civil e logística.
Para uma cidade em crescimento acelerado, o terminal surge como oportunidade concreta de:
ampliação da arrecadação municipal;
valorização profissional da mão de obra local;
atração de novas empresas e fornecedores;
consolidação de Itapoá como polo logístico do Sul do Brasil.
A presença da Coamo traz também um elemento importante: previsibilidade econômica. Cooperativas desse porte operam com planejamento de longo prazo, estabilidade operacional e compromisso institucional; fatores que costumam reduzir ciclos de crescimento artificial ou especulativo.
Em linguagem simples: o investimento não chega como aventura empresarial, mas como projeto estruturante.
O outro lado da balança: crescimento exige responsabilidade
Mas todo bônus carrega um ônus — e ignorar essa equação seria falhar com a missão do jornalismo.
O bairro Pontal, escolhido pela localização estratégica junto à Baía da Babitonga, possui características sociais e ambientais próprias. Ali convivem moradores antigos, pescadores, famílias tradicionais e novos residentes que escolheram a região pela tranquilidade e pela relação direta com o mar.
A chegada de um terminal portuário naturalmente levanta questionamentos legítimos:
aumento do tráfego pesado;
pressão sobre infraestrutura urbana;
mudanças no perfil imobiliário;
impactos na pesca artesanal;
transformações culturais inevitáveis.
Não são resistências ao progresso. São perguntas que toda comunidade madura precisa fazer antes de atravessar uma mudança histórica.
Um empreendimento que vai acontecer
O ponto central do debate atual já não é mais se o porto será construído, mas como essa transformação será conduzida.
Os processos ambientais, audiências públicas e estudos técnicos indicam que o projeto avança dentro dos ritos legais. O cenário aponta para um empreendimento que tende a se consolidar nos próximos anos.
Diante disso, surge uma reflexão necessária: a cidade precisa preparar-se não apenas para receber o investimento, mas para dialogar com ele.
Grandes obras não transformam somente a economia. Elas redefinem identidade urbana, relações sociais e expectativas coletiva
O papel da comunidade e do poder público
O verdadeiro sucesso do projeto dependerá de três pilares fundamentais:
Transparência permanente entre empresa, poder público e moradores;
Planejamento urbano antecipado, evitando crescimento desordenado;
Compensações sociais e ambientais efetivas, percebidas no cotidiano da população.
Quando esses elementos caminham juntos, o desenvolvimento deixa de ser imposto e passa a ser compartilhado.
Entre o porto e a cidade
A história mostra que cidades portuárias bem-sucedidas são aquelas que entenderam cedo que desenvolvimento econômico e qualidade de vida não são adversários — são parceiros que precisam ser equilibrados.
A chegada da Coamo ao Pontal representa uma oportunidade real de prosperidade. Mas também exige maturidade coletiva para preservar aquilo que faz de Itapoá um lugar singular: sua relação humana com o território.
O porto trará navios maiores, novos fluxos econômicos e novas perspectivas. Caberá à cidade garantir que, junto com o progresso, permaneçam vivos o pertencimento, a memória e o sentimento de comunidade.
Porque crescer é inevitável. Crescer bem é uma escolha.
