04 janeiro 2026

O Sol Não Tem Dono

 


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC

Tudo no universo conhecido pulsa a partir de uma fonte primaz: a luz do sol. Não apenas como fenômeno físico, mas como símbolo ancestral de energia, de continuidade e de pertencimento coletivo. O sol nasce para todos, sem distinção de fronteiras, crenças ou posses. Ainda assim, há quem se comporte como se essa luz tivesse dono, como se o dia fosse um privilégio privado. Talvez aí resida um dos males mais persistentes do mundo contemporâneo.

Sob o olhar sociológico, essa apropriação simbólica do sol revela a lógica da desigualdade internalizada. Vivemos em sociedades que naturalizam o acúmulo, o privilégio e a exclusão, ensinando, desde cedo, que alguns merecem mais do que outros. O sol, que deveria ser o grande equalizador da existência, acaba ofuscado por muros, discursos e estruturas que concentram poder e visibilidade em poucas mãos. A luz é a mesma, mas o acesso à sombra confortável e à água fresca não é.

A antropologia nos lembra que, desde as primeiras civilizações, o sol foi divindade, calendário e orientação. Povos antigos compreendiam que sua força era coletiva. Sem ele, não havia colheita, nem tempo, nem vida social organizada. Ao transformar essa energia comum em símbolo de posse, o ser humano moderno rompe com um pacto ancestral de pertencimento à natureza e ao outro. Passa a agir não como parte do sistema, mas como seu proprietário.

Do ponto de vista psicológico, a ilusão de que o sol nasce só para mim surge do medo. Medo da escassez, da irrelevância, do esquecimento. Para muitos, monopolizar a luz, seja em forma de poder, status ou narrativa, é uma tentativa desesperada de afirmar a própria existência. O problema é que, ao fazer isso, projeta-se sombra sobre os demais. E sombra prolongada adoece relações, comunidades e consciências.

Na vida real, essa lógica se repete nos pequenos gestos cotidianos. No trânsito onde ninguém cede passagem, na política onde poucos falam por muitos, no mercado onde o lucro se sobrepõe à dignidade, e até nas relações pessoais marcadas pela competição permanente. O sol continua nascendo para todos, mas há quem insista em fechar as janelas alheias para que sua própria claridade pareça maior.

Talvez o verdadeiro avanço civilizatório não esteja em conquistar novas fontes de energia, mas em reaprender o óbvio. A luz não é propriedade, é partilha. O sol não escolhe a quem iluminar. Quando o ser humano tenta fazê-lo, transforma energia vital em instrumento de dominação. E esse, ao fim e ao cabo, segue sendo um dos grandes males do mundo.

Entre Metas e Expectativas: o Risco Invisível da Virada do Ano



O ano de 2025 se despede sob um céu carregado. Pressões sociais acumuladas, cobranças silenciosas e a velha promessa de que o próximo calendário trará redenção. Em 2026, deposita-se mais do que esperança: projeta-se uma expectativa quase messiânica de mudança. É aí que mora o risco.

Do ponto de vista social, as metas que desenhamos raramente são apenas nossas. Elas nascem contaminadas pela lógica da comparação, pela vitrine das conquistas alheias e pela obrigação difusa de “dar certo”. A sociedade da performance não pune apenas o fracasso público; ela corrói, aos poucos, a autoestima privada. Quando os objetivos passam a responder mais ao olhar do outro do que ao sentido íntimo da própria trajetória, deixam de ser projeto e viram peso.

Na dimensão psicológica, o problema não está em sonhar alto, mas em amarrar a felicidade a um resultado fechado, rígido, quase contratual com o futuro. Expectativas infladas e inflexíveis geram ansiedade crônica e a sensação de derrota antecipada. Metas saudáveis precisam respirar: devem ser adaptáveis, divididas em processos e acompanhadas de consciência emocional. Caso contrário, aquilo que deveria orientar se transforma em veneno lento.

A filosofia ajuda a colocar os pés no chão. Dos estoicos ao existencialismo, a lição é recorrente: não controlamos o desfecho, apenas a postura diante do caminho. A vida não se curva às nossas projeções. É o sujeito que precisa ajustar suas expectativas à realidade em movimento, sem abdicar da responsabilidade pelas próprias escolhas.

A pergunta que ecoa na virada do ano é direta: devo reduzir minhas expectativas para ser feliz? A resposta exige maturidade. Não se trata de encolher sonhos, mas de retirar da linha de chegada o monopólio do sentido. Metas ambiciosas são necessárias, desde que funcionem como direção, não como condição para a dignidade pessoal.

Entrar em 2026 com menos ilusões não significa entrar com menos esperança. Significa compreender que felicidade não é prêmio por desempenho, mas consequência de um modo mais lúcido de caminhar. Em tempos de tanta pressão, talvez o verdadeiro avanço esteja em seguir em frente sem se envenenar pelo próprio ideal de sucesso.

02 janeiro 2026

Iniciativa irá reconhecer projetos que impulsionam o turismo negro no país


 Itapoá - 02 de Janeiro 2026

O Ministério da Igualdade Racial (MIR), irá selecionar 50 iniciativas de afroturismo por meio do 1º Prêmio Rotas Negras. O edital, que é uma parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), destinará mais de R$1,6 milhão para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades negras. As inscrições podem ser feitas até 18 de janeiro.

 

Com o intuito de impulsionar o turismo negro no país, a seleção do 1º Prêmio Rotas Negras irá reconhecer e valorizar projetos que evidenciam o legado africano, afro-diaspórico e afro-brasileiro, fortalecendo espaços de memória e resistência, sejam eles urbanos ou rurais.

 

A ação reforça o compromisso do MIR com a implementação e articulação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) em todo o território nacional. O edital conta com um investimento total de R$1,62 milhão, executados pela UFSM, direcionados à premiação de iniciativas da sociedade civil, municípios, consórcios intermunicipais e estados.

 

Cada uma das 50 iniciativas selecionadas receberá um prêmio em dinheiro, com valores que variam entre R$15 mil e R$70 mil, a depender da categoria de inscrição. O recurso será repassado na modalidade de doação sem encargo, garantindo que o valor seja aplicado diretamente no fortalecimento da iniciativa apresentada e na valorização da cultura negra.


LANÇAMENTO

 

Apresentado oficialmente durante o Seminário Rotas Negras 2025, que foi realizado em Brasília nos dias 26 e 27 de novembro, o prêmio foi um dos destaques no evento, que debateu o tema “Afroturismo e Desenvolvimento Sustentável: Estratégias para a Promoção da Igualdade Racial”. Além da apresentação do edital, o encontro marcou a posse do Comitê Gestor do Programa e a divulgação do 1º Relatório Técnico do setor, reunindo gestores e lideranças em torno do turismo como vetor de reparação e justiça econômica.

 

Esta iniciativa é mais uma entrega no âmbito do Novembro Negro, materializando as diretrizes do Decreto nº 12.277/2024. A iniciativa busca impulsionar o afroturismo no País, de forma que valorize a cultura afro-brasileira nos cenários nacional e internacional. 

 

 

1º PRÊMIO ROTAS NEGRAS

 

Tem como objetivo selecionar e premiar 50 iniciativas que fortaleçam o afroturismo como uma modalidade de empoderamento e visibilidade da história e cultura negra no Brasil. A premiação busca reconhecer ações que evidenciem o legado afro-diaspórico e afro-brasileiro em suas diversas manifestações, materiais e imateriais, como tradições, ritmos musicais, gastronomia, celebrações e religiosidades.

 

O escopo do prêmio abrange uma vasta gama de experiências, incluindo o turismo em Comunidades Remanescentes de Quilombo e Povos de Terreiro, a preservação de Clubes Sociais Negros e a criação de rotas urbanas ou rurais de memória e história. Ao valorizar a herança negra na construção da identidade nacional, a iniciativa visa impulsionar o desenvolvimento sustentável dessas comunidades e promover um turismo que respeite e potencialize o legado ancestral.

 

Rotas Negras – Instituído pelo Decreto nº 12.277/2024, o Programa Rotas Negras é uma ação estratégica do Governo do Brasil para estruturar e fortalecer o turismo negro no País. Seu objetivo central é valorizar a memória e a cultura afro-brasileira, utilizando o turismo como ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de renda e emprego.

 

Coordenado pelo Ministério da Igualdade Racial, o programa é desenvolvido de forma intersetorial, envolvendo ministérios como o do Turismo (MTur), Cultura (MinC), Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), além de órgãos como a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). A iniciativa busca dar visibilidade a roteiros que envolvem comunidades quilombolas, de terreiro e pontos de memória, promovendo o reconhecimento do protagonismo negro na formação da sociedade brasileira.





31 dezembro 2025

Quando o calendário vira, a cultura se revela


Por: Wilson Cesar Malinoski 

Jornalista -  5007/SC


Mudar o calendário de 2025 para 2026 é, em aparência, um gesto banal. Um número substitui o outro, páginas se encerram, agendas se renovam. Mas a cultura humana nunca lidou com o tempo de forma neutra. O calendário não é apenas uma ferramenta de organização, é um artefato simbólico que estrutura expectativas, medos, promessas e ilusões coletivas.

Do ponto de vista sociológico, a virada do ano funciona como um ritual moderno. Uma pausa consentida para reorganizar narrativas pessoais e sociais. É quando sociedades inteiras autorizam a si mesmas a recomeçar, mesmo sem ter mudado as condições objetivas da vida. A data cria a sensação de ruptura, ainda que o mundo siga contínuo e indiferente aos nossos marcos artificiais.

Na filosofia, o tempo nunca foi apenas cronológico. Ele é vivido, sentido, interpretado. A passagem de 2025 para 2026 carrega mais do que dias futuros; carrega a esperança de que o novo número seja capaz de corrigir erros antigos. É a velha crença de que o tempo, por si só, redime. Mas o tempo não transforma, ele apenas expõe. O que muda é a consciência que se tem dele.

Já a psicologia humana se agarra ao calendário como mecanismo de sobrevivência emocional. Precisamos de marcos para suportar o caos, de datas para nomear começos, de fins para elaborar perdas. A virada do ano oferece um alívio simbólico: a sensação de controle sobre aquilo que, no fundo, não controlamos.

Assim, ao mudar de 2025 para 2026, não é o tempo que muda, somos nós que pedimos licença para tentar mudar junto com ele. O calendário vira, mas a responsabilidade permanece. E talvez a verdadeira virada não esteja no número que chega, mas na coragem de não delegar ao tempo aquilo que só a ação humana pode transformar.


02 dezembro 2025

Brasil quase um século sob o comando da direita

 

Por Wilson César Malinoski
Jornalista Registro 5007/SC


Um retrato histórico que desmonta versões distorcidas do debate político

Nos últimos cem anos, o Brasil viveu uma experiência política diferente daquela que costuma ser repetida na arena pública. Quando se abandona a retórica emocional e se observa a cronologia real do poder, torna-se evidente que o país foi governado majoritariamente por uma hegemonia de direita e centro-direita. Ao todo, aproximadamente 88 anos sob controle desse espectro ideológico, enquanto a esquerda governou por cerca de 14 anos.

A análise histórica inicia na República Velha com Artur Bernardes e Washington Luís, sustentados pelos partidos oligárquicos PRM e PRP, alinhados a interesses conservadores e economicamente tradicionais. Em seguida, a Era Vargas, apesar de multifacetada, instituiu um regime centralizador e autoritário que não se enquadra na definição de governo de esquerda do ponto de vista institucional.

No período democrático pós-Segunda Guerra, entre 1946 e 1964, presidentes como Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, apoiados por legendas como PSD, UDN e PSP, mantiveram uma orientação de centro-direita. O golpe militar de 1964 encerrou esse ciclo democrático e instituiu mais de duas décadas de controle absoluto pelas siglas ARENA e PDS, representando um regime claramente conservador.

Com a redemocratização em 1985, esperava-se uma reconfiguração estrutural. Porém, a sucessão já na Nova República manteve a predominância da direita e do centro-direita. José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro preservaram a mesma orientação ideológica, confirmando a continuidade histórica.

A única ruptura temporária dessa hegemonia ocorreu com os mandatos de Lula e Dilma, eleitos pelo Partido dos Trabalhadores, que somaram aproximadamente 14 anos de governo federal. Lula retorna ao cargo em 2023, mas ainda é cedo para definir o impacto histórico desse novo período.

Diante dessas informações, perde sustentação o argumento frequentemente repetido de que o Brasil teria sido dominado pela esquerda. Os dados oficiais demonstram o contrário. A direita conduziu o país pela maior parte do último século e, mesmo nos períodos de alternância eleitoral, a estrutura institucional, econômica e política permaneceu amplamente conservadora.

Reconhecer esse percurso histórico é fundamental para qualificar o debate público e evitar conclusões superficiais que distorcem a realidade e alimentam conflitos baseados em percepções equivocadas.

11 novembro 2025

O Homem e sua Caricatura

Por Wilson César Malinoski – Jornalista




Há um abismo curioso entre o homem e a sua caricatura. A caricatura exagera traços, acentua imperfeições, amplia gestos — mas, paradoxalmente, é nela que às vezes nos reconhecemos mais do que no espelho.

Quando vi meu rosto transformado em traço em cor acinzentada, percebi algo profundo: o desenho não mostrava apenas o que sou por fora, mas o que talvez o olhar humano já pressente por dentro — um temperamento, uma ironia, uma história.

O homem carrega suas dúvidas, seu cansaço, seus erros e esperanças; a caricatura, por outro lado, carrega a síntese disso tudo. É o espelho deformado que revela a verdade que o espelho comum esconde.

No traço do caricaturista há filosofia: ele não desenha rostos, desenha essências. E quando a caricatura se parece tanto conosco, talvez seja o sinal de que já nos tornamos, de alguma forma, personagens de nós mesmos.

02 novembro 2025

Análise Linguística e Ética do termo “Vítima Fatal”

Por Wilson César Malinoski


Nos últimos anos, tornou-se quase automático ler em portais de notícia a expressão “vítima fatal” — especialmente em matérias policiais e de trânsito. É um termo repetido à exaustão, mas que revela um descuido preocupante com a precisão da linguagem jornalística.

Do ponto de vista semântico, “fatal” significa “aquilo que causa a morte”. Logo, um acidente, um disparo, uma facada ou uma queda podem ser fatais, porque são os agentes causadores do óbito. Já a vítima, por definição, é quem sofre o efeito do ato, e não quem o provoca. Portanto, chamar alguém de “vítima fatal” é um contrassenso: a vítima não pode ser “fatal”, pois ela não causa a morte, ela a sofre.

O correto seria dizer:

  • “O acidente teve uma vítima”; “O acidente foi fatal para o motorista”;

  • “A colisão resultou em uma morte”; “A vítima morreu no local”.

Mas o que explica essa insistência?

Trata-se de um vício de linguagem consolidado pela repetição nos noticiários. O termo soa mais “forte”, mais “impactante”, e por isso é replicado sem reflexão. No entanto, o jornalismo responsável deve prezar por clareza, precisão e respeito ao significado das palavras, pois são elas que constroem a credibilidade da informação.

Aos colegas jornalistas,

o conselho é simples, mas essencial:
Revisem as expressões antes de publicar. A força de uma notícia não está no exagero das palavras, mas na fidelidade ao fato. Evitem clichês que empobrecem a linguagem e confundem o leitor. A morte já é suficientemente séria, não precisa ser adjetivada com erros.

Como costumo dizer nas redações:

“Fatal é o erro de quem escreve sem pensar.”

Por que a violência vende? — Um olhar de bastidor

Por Wilson César Malinoski


Voltemos a 2014. Eu ainda era estudante da Universidade do Alto Rio do Peixe, em Caçador, e estava às voltas com a construção do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Numa das apresentações preliminares, levantei uma pergunta que, à época, pareceu quase uma heresia jornalística: por que a violência vende?

Lembro bem do semblante sério dos avaliadores, dos olhares cruzados e do silêncio que antecede a reprovação moral. A instituição, por meio de seus representantes, foi categórica — “isso não é verdade”. Sugeriram que eu abandonasse a ideia, que buscasse um tema mais “edificante”, mais “positivo”. Mas jornalista que se preze sabe: quando dizem para não ir por ali, é justamente ali que está a verdade.

Mantive a proposta. Criei um blog de opinião, investiguei o comportamento do público, mergulhei na antropologia da comunicação e nos instintos primários do ser humano. Descobri que o fascínio pelo conflito é antigo como a própria espécie. O medo, a curiosidade e a necessidade de se proteger — são gatilhos que fazem com que o olhar humano se volte, naturalmente, para o drama, o risco, o perigo.

Provei, com dados e reflexão, que a violência vende porque desperta a atenção, e atenção é a moeda mais disputada da era digital. O público não busca sangue — busca sentido. Mas a fronteira entre a informação e o espetáculo é cada vez mais tênue.

Meu TCC recebeu nota 10 do gabinete de avaliação. Uma vitória não apenas acadêmica, mas moral. Anos depois, observo com ironia os mesmos veículos que outrora negavam o fenômeno, fazendo uso indiscriminado dele — manchetes inflamadas, tragédias ampliadas, imagens sem contexto.

A tese que quiseram calar tornou-se realidade cotidiana.
A violência continua vendendo — não por culpa da imprensa, mas porque o ser humano ainda compra.

E eu sigo perguntando, como fiz lá atrás:
Será que somos vítimas da mídia — ou cúmplices dela?

28 outubro 2025

O apoio da Câmara ao Magistério e o que isso realmente significa para Itapoá?

 Por César Malinoski — Jornalista de Opinião

A aprovação da Moção nº 32/2025, pela Câmara Municipal de Itapoá, em apoio às reivindicações do Magistério, vai muito além de um gesto simbólico. Trata-se de um movimento político e social com efeitos diretos sobre a dinâmica entre Legislativo, Executivo e a categoria dos professores, que há tempos aguardam um olhar mais concreto do poder público.


 Um recado direto ao Executivo (O gesto político)

Quando uma moção de apoio é aprovada por maioria, com assinaturas de parlamentares de diferentes partidos, isso sinaliza algo importante: o Legislativo reconhece a legitimidade da pauta e transfere ao Executivo a responsabilidade pela resposta.   Ou seja, a Câmara fez o que está ao seu alcance dentro dos limites institucionais — pressionou publicamente, mas de forma respeitosa, para que o prefeito e sua equipe técnica estudem o impacto do reajuste e do auxílio-transporte.

Esse tipo de ação cria um novo ambiente político: o governo municipal passa a ser cobrado oficialmente a dialogar com a categoria, sob risco de desgaste se o tema for ignorado.


Um desafio real ( O impacto financeiro)

O pedido de reajuste de 41,4% no vencimento-base — elevando o piso de R$ 4.951,00 para R$ 7.000,00 — é, sem dúvida, expressivo. Do ponto de vista fiscal, isso exige um estudo técnico profundo sobre a capacidade orçamentária do município, o comportamento da folha de pagamento e o impacto sobre o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Se aprovado sem planejamento, pode gerar desequilíbrio financeiro; se bem estruturado, pode representar um salto de qualidade e motivação na rede municipal de ensino. O ponto central será a transparência: abrir os números e mostrar se Itapoá tem condições de arcar com o aumento de forma gradual e responsável.



Valorização e permanência ( O reflexo na sala de aula)

Sob a ótica pedagógica e social, a valorização salarial é mais do que uma pauta corporativa — é uma política de retenção de talentos. Muitos professores de Itapoá enfrentam longas distâncias, carga horária alta e estrutura precária nas escolas.
O reajuste e o auxílio-transporte podem reduzir a evasão de profissionais qualificados, melhorar o clima organizacional e refletir diretamente na qualidade do ensino.

Professor valorizado é aluno melhor atendido. E município que investe em educação cria capital humano — o mais duradouro e rentável de todos.


Reposicionamento de forças (O efeito político)

Essa moção também reposiciona os vereadores diante da opinião pública. Em ano pré-eleitoral, aproximar-se do magistério é se aproximar de uma das categorias mais mobilizadas e respeitadas da cidade.
Por outro lado, o Executivo precisa agir com cuidado: se ignorar o pleito, pode parecer insensível; se acolher sem planejamento, corre risco fiscal.
O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre responsabilidade e sensibilidade social.

Quando o gesto vira compromisso  (A leitura final)

Em síntese, o que aconteceu nesta segunda-feira (27) não é apenas mais uma moção aprovada. É o início de uma nova fase de pressão institucional e diálogo social em Itapoá.
O gesto dos vereadores cria uma expectativa coletiva — e expectativa, na política, tem peso.

O Magistério saiu fortalecido. A Câmara mostrou sintonia com as demandas da base. Agora, o foco se volta ao Executivo, que terá de mostrar se prefere administrar o problema ou construir a solução.

24 outubro 2025

Fraiburgo pode fazer história: Daniela Suzin busca representar a diversidade catarinense na Alesc

  Por Wilson César Malinoski – Jornalista de Opinião

Daniela Suzin Pré-Candidata a Deputada

Fraiburgo, conhecida como a “terra da maçã”, pode estar prestes a colher um novo fruto político — desta vez, da diversidade e da representatividade. Daniela Suzin, 28 anos, mulher transexual e natural do município, prepara-se para disputar pela primeira vez uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), rompendo paradigmas em uma das cidades mais conservadoras do Meio-o este catarinense.

Atualmente radicada temporariamente em Itajaí, por compromissos profissionais e políticos, Daniela vem se articulando junto a lideranças regionais e movimentos sociais, com foco em ampliar o debate sobre direitos humanos, políticas de inclusão e o protagonismo da comunidade LGBTQIAPN+ dentro das estruturas partidárias catarinenses.

Sua última filiação registrada foi no União Brasil, mas bastidores políticos indicam possíveis aproximações com o PSD e o Podemos, partidos que devem abrir suas janelas de transferência nas próximas semanas. A movimentação reforça o interesse de legendas tradicionais em diversificar seus quadros e sinalizar abertura a novos perfis de liderança.

Se confirmada sua pré-candidatura, Daniela Suzin será a primeira transexual da história de Fraiburgo a disputar uma vaga no Legislativo estadual — um marco não apenas para a cidade, mas também para Santa Catarina, estado que ainda carece de representatividade trans na política institucional.

Fraiburgo é conhecida por seu perfil eleitoral conservador, majoritariamente alinhado a partidos de direita, o que torna a trajetória de Daniela um desafio adicional. No entanto, sua proposta de diálogo, respeito e renovação vem encontrando espaço entre jovens eleitores, lideranças comunitárias e grupos que defendem a pluralidade política como valor democrático.

Mais do que um nome em uma futura urna, Daniela Suzin representa a possibilidade concreta de oxigenar o debate político catarinense, aproximando o poder público das vozes que ainda lutam por reconhecimento e igualdade.





O valor da representatividade

Santa Catarina precisa olhar para a diversidade como um ativo social e democrático — não como ameaça. A candidatura de Daniela Suzin é, antes de tudo, um convite à reflexão sobre quem tem ocupado o espaço da política e quem ainda está do lado de fora.

Em tempos de polarização e discursos excludentes, apoiar trajetórias como a dela é reafirmar a importância da democracia participativa, onde o pluralismo e o respeito às diferenças constroem pontes em vez de muros.

A comunidade LGBTQIAPN+ catarinense tem agora a oportunidade de unir forças e ampliar sua representatividade no cenário estadual. Fraiburgo pode ser o ponto de partida dessa nova história.

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