03 março 2026

A NARRATIVA DO CULPADO PERFEITO


Por: Wilson Cesar Malinoski - JP 5007/SC

Na sessão de dia 02/03/2026 da Câmara de Câmara Municipal de Itapoá, o tom adotado pelos vereadores Ademarzinho e Márcio Melo causou estranheza.

Quem chegasse desavisado poderia concluir que o grande entrave ao desenvolvimento de Itapoá não seria a ausência de planejamento urbano, nem a precariedade estrutural, nem a falta de investimentos em áreas logísticas. Não. Pelas falas, o problema pareceria ter nome e categoria: os caminhoneiros.

E aí nasce um risco perigoso: quando o discurso público começa a criar um “culpado conveniente”, a análise deixa de ser técnica e passa a ser narrativa. Transformar trabalhador em vilão é sempre mais simples do que admitir deficiência estrutural. Os caminhoneiros não pedem privilégio. Pedem condição mínima para cumprir a própria lei. Há diferença.

Se não há pátio estruturado, se não há áreas públicas organizadas, se não há iluminação adequada, se não há planejamento viário compatível com a vocação logística da cidade, a responsabilidade não pode ser transferida para quem depende do volante para sobreviver.

Outra contradição evidente é a lógica financeira.

Cobrar estacionamento de quem já movimenta a economia local, paga impostos, consome no comércio, abastece postos e contribui diretamente para a arrecadação municipal soa como dupla penalização. O tributo que entra nos cofres públicos deve retornar em infraestrutura , essa é a essência do pacto social.

Imposto não é pedágio moral.

Ele existe para custear rua pavimentada, iluminação, organização urbana, comunicação eficiente e, sim, soluções públicas.

O mais curioso é o simbolismo político da situação.

O vereador Márcio foi um dos mais votados justamente por essa categoria. Isso carrega uma responsabilidade adicional. Representatividade não é apenas receber voto; é compreender o contexto de quem confiou o voto.

Quando o representante parece se distanciar da base que o elegeu, surge a sensação de desalinhamento político. E aqui não se trata de defender irregularidade. Trata-se de coerência. Porque cumprir a lei é obrigação. Mas criar condições para que ela seja cumprida é dever do poder público.  Quando a fiscalização vem antes da estrutura, a política vira inversão de prioridades.

E talvez o maior problema não esteja no caminhão parado.

Talvez esteja na facilidade com que se aponta o dedo para quem trabalha, enquanto o debate sobre infraestrutura permanece estacionado. Itapoá cresce em discurso, mas tropeça em execução.  E a cidade que precisa de logística eficiente não pode tratar seu operador logístico como adversário.

No fim, o que está em jogo não é apenas estacionamento. É coerência administrativa. É responsabilidade institucional. É maturidade política. Porque cidades não se desenvolvem combatendo trabalhadores.  Se desenvolvem planejando para eles.

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