02 março 2026

ENTRE A MULTA O DESCASO PUBLICO E A RESPONSABILIDADE: E AGORA, CAMINHONEIRO?


Poucos dias depois do anúncio das novas regras de fiscalização que entrarão em vigos no final de março em Itapoá, proibindo caminhões estacionados em vias públicas e restringindo que motoristas levem os veículos para casa, a realidade tratou de atravessar o discurso oficial. Um caminhoneiro foi assaltado em frente à própria residência.

E é aqui que o debate deixa de ser técnico e passa a ser humano.

Onde esse trabalhador deve se sentir seguro?

No papel, a medida parece organizada. Caminhões em ruas estreitas geram reclamação, atrapalham o trânsito, mudam a rotina de bairros que cresceram sem planejamento para esse tipo de frota. É fato. Cidade que cresce precisa de regra.

Mas cidade que cresce também precisa de coerência.

O caminhão não é um carro comum. É ferramenta de trabalho, patrimônio construído com financiamento longo e prestação alta, muitas vezes o único sustento de uma família inteira. Não é apenas um veículo parado. É o pão de amanhã.

E o impasse se impõe.

Não pode deixar na rua.
Não pode levar para casa.
Não há estrutura pública suficiente para garantir estacionamento seguro.

O resultado é cruelmente simples. O caminhoneiro fica entre a multa e o risco.

Quando um assalto acontece logo após o endurecimento das regras, a discussão muda de escala. Deixa de ser apenas mobilidade urbana. Torna-se questão de segurança pública e responsabilidade coletiva.

Se o município restringe onde esse profissional pode estacionar, quem assume a responsabilidade pela segurança do patrimônio dele?

Organização é necessária. Mas organização sem alternativa deixa de ser gestão e vira imposição.

Nenhuma política pública se sustenta apenas na proibição. Restrição exige contrapartida concreta. Pátios regulamentados. Áreas seguras. Iluminação adequada. Vigilância. Diálogo direto com a categoria.

Sem isso, o caminhoneiro deixa de ser parte da engrenagem da cidade e passa a ser tratado como obstáculo.

E isso não é desenvolvimento. É desequilíbrio.

Itapoá cresce, amplia sua atividade portuária, fortalece a logística e depende diariamente desses profissionais para manter a economia girando. O mesmo caminhão que hoje pode receber multa é o que amanhã abastece mercados, entrega insumos, constrói casas e sustenta o comércio local.

O episódio do assalto escancara algo maior. O trabalhador está sendo responsabilizado por uma estrutura que ainda não foi devidamente criada.

A pergunta não é apenas onde estacionar.

É quem protege quem trabalha.

Porque no fim, a dúvida que ecoa nas ruas é direta e incômoda:

Se não pode deixar na rua
se não pode levar para casa

A pergunta é: aqui em Itapoá onde o caminhoneiro autônomo deve se sentir tranquilo?

Jerusa Sores -  Jornalista JP0005937/SC

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