Itapoá no radar do GAECO: coincidência ou reflexo do crescimento?
Por Wilson César Malinoski
Há alguns anos, quando alguém falava em Itapoá, logo vinha à mente uma cidade de praias tranquilas, natureza exuberante e um município que crescia impulsionado pelo turismo. Hoje, essa imagem continua verdadeira, mas já não é suficiente para explicar a nova realidade da cidade.
Itapoá cresceu. Cresceu em população, em investimentos, em arrecadação, em importância logística e econômica. Com o Porto consolidado como um dos principais do país, bilhões de reais circulam diariamente pelo município. E onde há desenvolvimento, também surgem interesses dos mais variados, alguns legítimos, outros nem tanto.
Não é por acaso que, somente em 2026, o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) esteve no município em diferentes operações de grande relevância. Primeiro foi a Operação Nórcia, voltada à investigação de um sofisticado esquema envolvendo fraudes imobiliárias, estelionato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Pouco tempo depois, uma nova mobilização chamou a atenção dos moradores. A Operação Catilina passou a investigar algo ainda mais sensível para a democracia: a possível influência de uma organização criminosa no processo eleitoral municipal de 2024, mediante intimidações e outras práticas que agora são objeto de investigação do Ministério Público.
Em paralelo, Santa Catarina assistiu à deflagração da Operação Coluna Sul, considerada uma das maiores ações já realizadas contra o crime organizado no Estado, reforçando um cenário em que as forças de segurança ampliam sua atuação diante do avanço das organizações criminosas.
É importante deixar uma premissa absolutamente clara.
Operações policiais e investigações não significam condenações. Vivemos em um Estado Democrático de Direito, onde toda pessoa investigada possui o direito constitucional à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. O papel do jornalismo sério não é condenar antecipadamente, mas informar e provocar reflexão.
E é justamente essa reflexão que precisa ser feita. Será que Itapoá passou a ter mais crimes do que antes?
Ou será que, com o crescimento da cidade, ela simplesmente passou a despertar maior interesse tanto dos investidores quanto daqueles que tentam transformar desenvolvimento econômico em oportunidade para práticas ilícitas?
A resposta talvez esteja justamente na transformação que o município vive.
Hoje, Itapoá deixou de ser uma pequena cidade do litoral catarinense para ocupar posição estratégica no cenário econômico nacional. O Porto movimenta cargas para diversos continentes. Grandes empreendimentos imobiliários modificam a paisagem urbana. Novas empresas chegam todos os anos. A arrecadação cresce. A população aumenta em ritmo acelerado. Tudo isso representa riqueza. E riqueza sempre atrai interesses.
É exatamente por essa razão que o fortalecimento das instituições públicas torna-se ainda mais importante.
Quando o Ministério Público investiga, quando o GAECO atua, quando a Polícia Civil e as demais forças de segurança cumprem seu papel, a mensagem transmitida à sociedade é de que ninguém está acima da lei. Não importa o poder econômico, político ou financeiro. Uma cidade que cresce precisa crescer também em transparência, fiscalização, planejamento e responsabilidade institucional.
