10 julho 2026

A Tainha, a Planilha e o Pescador


Quando Brasília fala em cota, estatística e manejo pesqueiro, os argumentos parecem tecnicamente irrefutáveis. Afinal, preservar os estoques de tainha para as próximas gerações é uma obrigação de qualquer governo responsável. O problema começa quando a frieza dos números encontra a realidade das praias catarinenses.

A decisão de encerrar antecipadamente a pesca da tainha por arrasto de praia pode até estar amparada em critérios científicos e normas de gestão ambiental. No papel, tudo parece organizado. Mas, na prática, a medida atinge uma atividade que vai muito além da economia. A pesca da tainha faz parte da identidade cultural do litoral catarinense, moldou comunidades inteiras e representa a principal fonte de renda de milhares de famílias.

O que se vê é um conflito recorrente entre duas visões de mundo. De um lado, técnicos federais observando gráficos, projeções e percentuais de captura. Do outro, pescadores que observam o mar diariamente e afirmam estar diante de uma das melhores safras das últimas décadas. Entre esses dois universos, falta diálogo.

Não se trata de defender a pesca predatória nem de ignorar a necessidade de conservação dos recursos naturais. A questão é saber se os critérios utilizados refletem adequadamente a realidade regional e se a pesca artesanal deve receber o mesmo tratamento dispensado a modalidades muito mais intensivas e industrializadas.

A reação catarinense não é mero capricho político. Ela revela o sentimento de quem vê uma tradição centenária ser regulada à distância por decisões que, muitas vezes, parecem desconhecer as particularidades locais. Quando uma comunidade inteira depende da safra para complementar sua renda anual, o encerramento antecipado da temporada não é apenas uma questão ambiental: é também uma questão social.

O debate sobre a tainha expõe um desafio maior do Brasil contemporâneo: como conciliar ciência, preservação ambiental, cultura tradicional e desenvolvimento econômico. Enquanto essa equação não for resolvida, a cada inverno a tainha continuará subindo a costa e a polêmica continuará descendo de Brasília para as praias de Santa Catarina.

Wilson César Malinoski
Jornalista e comentarista de assuntos regionais

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