Por César Malinoski
Segundo dados amplamente divulgados, o programa movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano. Para muitos críticos, trata-se apenas de um gasto que pesa sobre o orçamento federal. Mas a economia real costuma ser mais complexa do que os discursos simplificados das redes sociais.
Quando uma família recebe o benefício, o dinheiro não fica guardado em um cofre. Ele é imediatamente destinado à compra de alimentos, remédios, roupas, material escolar, gás de cozinha e outros itens essenciais. Esse consumo movimenta o mercadinho do bairro, a farmácia, a padaria, o açougue e uma extensa cadeia de fornecedores.
Economistas chamam esse fenômeno de efeito multiplicador da renda. Em termos simples, significa que um real gasto por uma família pode circular diversas vezes dentro da economia antes de encerrar seu ciclo.
Considerando uma estimativa conservadora, os R$ 150 bilhões investidos no Bolsa Família podem gerar algo próximo de R$ 270 bilhões em atividade econômica ao longo do ano. É dinheiro circulando, produzindo vendas, empregos e arrecadação.
E aqui surge um detalhe que raramente aparece nas discussões políticas: em cada etapa desse processo existem impostos.
Quando o cidadão compra arroz, feijão, óleo, sabão ou qualquer outro produto, parte do valor pago vai para os cofres públicos por meio de tributos como ICMS, PIS, Cofins e outros encargos embutidos nos preços. O comerciante também paga impostos. A indústria paga impostos. O transportador paga impostos.
Utilizando uma carga tributária média próxima de 30% sobre essa movimentação econômica, o retorno potencial para o Estado poderia chegar a aproximadamente R$ 81 bilhões em arrecadação tributária.
Isso significa que, dos R$ 150 bilhões inicialmente investidos, uma parcela expressiva retorna ao próprio governo ao longo do ciclo econômico.
Naturalmente, isso não quer dizer que o programa "se paga sozinho". A conta pública é mais complexa do que isso. Porém, também não é correto afirmar que todo o valor aplicado desaparece sem gerar efeitos econômicos.
O que os números sugerem é que o Bolsa Família funciona como uma espécie de injeção de recursos nas camadas mais pobres da população, justamente aquelas que possuem maior propensão ao consumo imediato. Diferentemente de grandes aplicações financeiras ou reservas patrimoniais, esse dinheiro retorna rapidamente ao mercado.
Talvez seja por isso que muitos economistas defendam que programas de transferência de renda devem ser analisados não apenas pelo custo orçamentário, mas também pelos impactos econômicos que produzem.
No fim das contas, o debate que deveria ocupar o espaço público não é simplesmente se o Bolsa Família custa caro ou barato. A verdadeira discussão está em saber qual é o retorno social, econômico e fiscal produzido por esse investimento.
Porque uma coisa é certa: o dinheiro que chega à mesa de quem tem fome não para ali. Ele continua circulando, movimentando a economia e, em parte, voltando para os cofres públicos.
E antes que alguém transforme essa reflexão em disputa ideológica, vale lembrar que a matemática não tem partido. Ela apenas revela caminhos que muitas vezes passam despercebidos em meio ao barulho da política.
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