17 abril 2026

O erro de colocar tudo na conta de um único governo




Por Wilson Cesar Malinoski - Jornalista - 5007/SC

Existe uma frase que ecoa nas ruas, nos cafés, nas redes sociais e até nas conversas de esquina: “Só vai melhorar quando mudar o governo”.
A frase parece simples. Mas ela carrega um erro gigantesco. Um erro de análise, de compreensão política e, principalmente, de responsabilidade cidadã.

Em Itapoá, por exemplo, a realidade política não é homogênea. O Executivo municipal segue uma bandeira. O Legislativo municipal possui diversas outras. Já no governo do estado de Santa Catarina, o cenário também é fragmentado. No plano federal, no Brasil, a situação se torna ainda mais complexa, com partidos diferentes disputando e dividindo poder no Executivo e no Legislativo.

Ou seja, não existe “um governo” único. Existem governos. Plural. Fragmentados. Distribuídos. Interdependentes.

Quando alguém diz que tudo depende de mudar o governo federal, ignora que o vereador vota leis locais, fiscaliza contratos, aprova orçamentos municipais. Ignora que o prefeito administra diretamente a saúde básica, a manutenção das ruas, a educação municipal e grande parte da estrutura que impacta diretamente a vida cotidiana do cidadão.

Ignora também que deputados estaduais definem políticas regionais, infraestrutura estadual, segurança pública e investimentos estratégicos. E que deputados federais e senadores compõem o equilíbrio de forças no Congresso Nacional.

Portanto, é justo colocar tudo na conta de um único governante federal? A resposta é não. 

Essa simplificação, embora comum, revela uma sociedade que ainda enxerga a política de forma superficial. É mais fácil atribuir culpa a um único nome do que compreender a engrenagem complexa do sistema democrático.

E aqui surge uma reflexão importante:
Quando tudo é culpa de alguém distante, ninguém próximo é responsabilizado.

O vereador deixa de ser cobrado.  O prefeito deixa de ser questionado. O deputado estadual desaparece do radar.  E o cidadão perde o poder de fiscalização.

A democracia não é um botão que se troca a cada quatro anos. Ela é uma engrenagem diária. E cada peça tem sua função.

Talvez a frase mais correta não seja “só vai melhorar quando mudar o governo”.  Talvez o mais honesto seja dizer:

Vai melhorar quando a sociedade entender como funciona o governo.
Vai melhorar quando o eleitor cobrar todos os níveis de poder.
Vai melhorar quando a responsabilidade deixar de ser concentrada e passar a ser compartilhada.

Porque, no fundo, o maior erro não está apenas na frase.
Está na forma como enxergamos a política.

E enquanto continuarmos procurando um único culpado, continuaremos também deixando de cobrar todos os responsáveis. 

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