19 março 2026

EM ITAPOÁ CREDIBILIDADE NÃO PODE SER REAJUSTADA POR LEI

Por César Malinoski - Registro 5007/SC



Em tempos de discurso afinado e justificativas bem embaladas, a Câmara de Vereadores de Itapoá aprovou o reajuste do salário do prefeito e do vice com um argumento que soa nobre aos ouvidos da população: melhorar a remuneração dos médicos e, assim, fortalecer a saúde pública. A tese é técnica, legal e aparentemente irretocável. Mas quando se observa o movimento com o olhar de quem já percorreu muitos corredores do poder, surgem perguntas que não podem ser ignoradas.

O raciocínio apresentado é simples. Como o salário do prefeito define o teto do funcionalismo municipal, elevar esse valor permitiria abrir espaço para pagar melhor profissionais essenciais, especialmente médicos. De fato, essa lógica encontra respaldo na legislação. O problema não está exatamente no que é dito, mas no que fica fora do enquadramento.

Se a dificuldade em manter médicos está ligada à remuneração, por que a solução escolhida começa pelo topo da estrutura política e não por mecanismos diretos na área da saúde. Existem alternativas administrativas, modelos de contratação e estratégias de valorização profissional que poderiam ser debatidas com mais profundidade. Quando apenas um caminho é apresentado como inevitável, a prudência recomenda cautela.

Ao elevar o salário do prefeito para R$ 33 mil, não se altera apenas um cargo. Amplia-se automaticamente o teto de toda a máquina pública. Secretários, cargos estratégicos e estruturas internas passam a orbitar em torno de um novo limite. Esse efeito em cadeia não aparece com destaque no discurso oficial, mas é parte central do impacto real da medida.

Outro ponto que chama atenção é o tempo político da decisão. Embora os novos valores tenham validade retroativa a janeiro de 2026, a confirmação ocorreu apenas em março. Em política, o calendário nunca é um detalhe irrelevante. Ele revela estratégias, mede pressões e, muitas vezes, tenta suavizar o impacto de decisões que poderiam gerar maior reação pública.

O crescimento da cidade também foi usado como justificativa. E é verdade que Itapoá vive um momento de expansão, com aumento populacional e novas demandas administrativas. Mas crescimento, por si só, não pode ser argumento automático para ampliação de custos públicos sem que a população perceba retorno direto na qualidade dos serviços.

No fim das contas, a questão central não é apenas legal nem exclusivamente administrativa. É política e, sobretudo, de confiança. O cidadão comum olha para a medida e faz uma leitura direta: aumentaram o salário do prefeito com a promessa de melhorar a saúde. O problema é que o aumento é imediato, enquanto o benefício prometido ainda é incerto.

A engrenagem pública exige ajustes constantes e, em muitos casos, decisões impopulares são necessárias. Mas quando uma medida amplia ganhos no topo sob a justificativa de resolver problemas na base, o mínimo que se espera é transparência absoluta, debate amplo e resultados concretos em curto prazo.

Porque no final, mais do que números, o que está em jogo é a credibilidade. E essa, diferente de salários, não pode ser reajustada por lei.

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